Ficar, Crescer e Cantar em Português: GANSO
- Rita Ferreira

- 5 de mar.
- 7 min de leitura
É em Lisboa que, desde 2015, os GANSO dão forma ao seu percurso na música portuguesa. Nesse mesmo ano lançam o primeiro EP, Costela Ofendida, ponto de partida de uma discografia que viria a crescer com naturalidade e consistência, acumulando canções, palcos e um público cada vez mais fiel.
Atualmente composta por Luís Ricciardi, João Sala, Miguel Barreira, Gonçalo Bicudo e Diogo “Horse” Rodrigues, a banda consolidou o seu lugar no panorama português com álbuns como Não Tarda (2019) e Vice Versa (2024), além do single Sorte a Minha (2022), passando por festivais como o Vodafone Paredes de Coura e Super Bock Super Rock.
Afirmam uma identidade própria dentro da nova geração da música nacional, recorrendo frequentemente a temas do quotidiano e com canções que cruzam o trivial e o reflexivo. Mais importante, guiam-se pela premissa de fazer música “como querem” e deixar que tudo aconteça naturalmente.
O Tribuna esteve à conversa com João Sala, vocalista da banda, para perceber como têm navegado nas águas, por vezes turbulentas, da música portuguesa ao longo destes dez anos, marco que assinalam no próximo dia 6 de março, num concerto comemorativo no Coliseu dos Recreios, com vários convidados especiais.
Com uma boa dose de azar, uma peculiar mansão francesa e teorias da conspiração, a curta-metragem de Sinais a Mais reflete bem a identidade da banda de cruzar o experimental com um tom irónico e descomprometido, contrastante com a seriedade muitas vezes associada à arte. Esta vertente mais arrojada, que acaba por desafiar o ouvinte, é um objetivo vosso ou acaba por ser um resultado do que vos inspira e entusiasma enquanto artistas?
Acho que é bom não nos levarmos muito a sério em tudo o que fazemos e talvez isso possa ser uma espécie de escudo. Quando as coisas são um bocado despretensiosas e até irónicas acabam por ser, ironicamente, mais verdadeiras. E acho que o público gosta disso. Não é que façamos esse tipo de coisas a pensar se o público vai gostar ou não, mas confiamos no nosso gosto e acreditamos que as pessoas que nos ouvem gostam de nós porque também têm um gosto parecido com o nosso.
Como é que é tipicamente o vosso processo criativo? Quando compõem há algum tipo de limite para a criatividade ou a regra é mesmo não haver regras?
Normalmente, o que fazemos é construir tudo em banda. Claro que há sempre uma ideia que vem de uma pessoa, mas desenvolvemo-la em conjunto, ou seja, essa pessoa tem uma ideia em casa, com o seu instrumento, e depois fazemos mesmo retiros de banda, períodos em que paramos tudo o que estamos a fazer nas nossas vidas para nos juntarmos e só tocarmos durante o máximo de horas possível… e são nesses retiros que nascem as músicas.
Para cada música, por norma, temos, primeiro, só uma parte A e uma parte B. Depois, começamos a pensar mais na sua estrutura do início ao fim e tentamos não repeti-la para todas as músicas. A voz só vem a seguir. Ultimamente, sou eu quem escreve as músicas, desde Gino e Sorte a Minha. Até quando compomos a parte instrumental, já estamos a pensar algo do género “aqui é o refrão”, “aqui é uma parte instrumental”. Por isso mesmo, antes da voz existir, a música já é construída a pensar nos espaços onde vai entrar ou não.
Há muito espaço para a criatividade, mas, por outro lado, caímos nos mesmos vícios de criação, e às vezes a regra é mesmo fugir à regra, não gostamos de nos repetir muito. Não acho que a nossa música seja muito experimental, mas é como disse: se nesta temos verso, refrão e uma parte C, na próxima já tentamos que não seja assim. Às vezes são pequenos detalhes, como uma música começar sem bateria, que só entra no meio, como acontece na Gino ou na Sinais a Mais. Tentamos não o repetir nas outras.
Para muitos de nós é tão fácil saber que eu hei-de ser Lisboa até morrer, mas, por outro lado, nem sempre encontramos em Portugal as condições necessárias para apostar e explorar aquilo de que gostamos. Sentem, no vosso caso, essa mistura entre o apego ao país e alguma frustração com o contexto artístico português?
Sim, um bocado. Acho que em relação a melhorias no contexto artístico não há muito que possamos fazer, porque começa por uma questão de hábitos e de educação. Para além de sermos um país pequeno, onde não existe propriamente, no caso da música, uma indústria musical, se calhar, às vezes, não há tanto interesse das pessoas em ir a concertos ou consumir outras formas de arte, como pode existir noutros países onde a cultura é mais valorizada. Depois, também não somos um país com muito dinheiro: por exemplo, em França existem subsídios para profissionais da cultura,que, naqueles períodos entre trabalhos, recebem um apoio do Estado. Isso é incrível, mas não sei como é que Portugal teria meios para ter algo parecido.
A Nem sonhar fala sobre essas oportunidades que temos no estrangeiro para “tudo e mais alguma coisa”, música incluída. No nosso caso, como somos uma banda de 5 pessoas que cantam em português, seria difícil coordenar as nossas vidas para tentar uma carreira noutro país. Se calhar nem faria sentido estarmos noutro país senão o nosso e, portanto, a música é sobre isso também. A nossa condição artística faz com que fiquemos por aqui e está tudo bem.
…Portanto, mesmo que crescer artisticamente pudesse passar por sair de Portugal, foi uma escolha ficar?
Nem foi uma escolha, assim foi. Não pensámos no início da carreira “se queremos fazer música em Portugal, vamos cantar em português”, foi mais “olha, vamos fazer músicas em português e, consequentemente, a nossa carreira será aqui”. Se calhar, individualmente, qualquer músico poderia ter uma boa experiência fora de Portugal. Agora, para nós, enquanto banda, um grupo de 5 pessoas, seria difícil de repente mudarmos as nossas 5 vidas para outro sítio para fazer carreira lá.
Às vezes é difícil não ultrapassar os limites da nostalgia quando nos lembramos das nossas infâncias. Sem estar a cuspir nos patinhos que ainda não conseguem bem nadar, quais são os maiores choques geracionais que sentem em relação aos adolescentes/jovens adultos atuais?
Talvez seja o aspeto das skills sociais. Às vezes acho que um adolescente pode ter mais dificuldade em começar uma conversa com um estranho, na rua ou num autocarro, por exemplo, mas talvez isso seja uma coisa da adolescência em geral, e não só dos adolescentes de agora.
Essa frase é da música Anos 20, que fala sobre acharmos, no fundo, que a nossa adolescência é a melhor, quando, na verdade, a nossa memória engana-nos e estamos cegos em relação ao facto do mundo dessa altura também ter muitos problemas. Por exemplo, quando tinha 10 anos não conhecia esses problemas e só conhecia a minha vida, uma infância privilegiada, então associo o ano de 2005 a um grande ano, àquele ano da minha infância em que tudo estava bem.
Não sei se sinto assim um grande choque com gerações mais novas, pelo menos ainda não.
Vivemos num momento em que a música já não circula apenas por rádios, salas de espetáculo ou álbuns completos. A lógica da viralidade, das métricas e da presença constante nas plataformas digitais tornou-se cada vez mais importante para fazer crescer a audiência. Tendo em conta que nenhum de vocês tem uma presença muito forte nas redes sociais, existe uma intenção de fugir a esse consumo mais imediato de música, mesmo reconhecendo o potencial das redes para dar a conhecer o vosso trabalho a novos públicos?
Também acho que isso mudou imenso nos últimos anos. Quando começámos a nossa banda, o Facebook é que estava a bombar, criámos logo uma conta. Se calhar estamos um bocado presos a esse tipo de comunicação que havia. Agora é sempre preciso estar a fazer videos e nós não estamos muito para aí virados. Se calhar até pode ser pouco natural quando nos tentamos exprimir dessa forma mais moderna.
Hoje em dia é mais difícil: uma banda tem de se preocupar com outras coisas além da música que faz e é muito importante essa comunicação. Mas é pena, porque, às vezes, pode haver músicos muito bons com comunicações fracas e também pode haver grandes comunicadores com músicas fracas.
Se somos menos comunicativos, por exemplo, no Tiktok, não é opcional. Honestamente, é mesmo porque não é muito natural para nós comunicar dessa forma. Não é do tipo bater o pé e dizer “Não! A mim não me apanham nessas modernices”.
Se calhar é aqui que sinto o maior choque com o jovem que era há 10 anos. Não me preocupava com as redes. Quando íamos ver as nossas redes sociais, estavam “na crista da onda” sem qualquer esforço.
…e, nessa lógica, alguma vez sentiram pressão para tornar a música “mais acessível” ou “mais viral”?
Isso jamais. Fazemos a nossa música como queremos, de acordo com o nosso gosto e nunca pensamos sequer “isto vai ou não vai bater?”, “vai agradar o público?”. É como disse: confiamos no nosso gosto e que o nosso público tem um gosto como o nosso e que, por isso, vai gostar do que fazemos. Agora, quanto à forma como atuamos nas redes sociais, tentamos acompanhar o que se anda a fazer por aí.
Na verdade, isso não é uma coisa nova. Quando a rádio estava a bombar, havia essa preocupação também. O viral é, hoje, uma coisa algorítmica, antigamente era mais por regras. Por exemplo, uma música sem refrão ou com um refrão que só entra aos 2 minutos já não era elegível para a rádio ou para ser apreciada em larga escala.
Já vos aconteceu fazer uma música que estavam a pensar deixar de fora de um álbum e que depois até acabou por vos surpreender?
Do Vice Versa houve imensas músicas que não entraram, e que, na verdade, acabaram por não chegar a ser músicas feitas, já com voz. Talvez só uma ou outra. Foram músicas que começámos mas que depois não estávamos a sentir, então parámos de trabalhar nelas. Mas já aconteceu, precisamente com Papel de Jornal, que era uma música que estava na gaveta há imenso tempo e que, de repente, acabou por ganhar uma vida nova e por ser o primeiro single do Vice Versa.
Passaram-se 10 anos desde o início dos GANSO, com direito a um concerto de celebração no Coliseu dos Recreios. Olhando para trás, chegar até aqui era algo com que o João de 2015, de skinny jeans e otimista, sonhava ou foi modesto nas expectativas?
Não sonhava com nada disto, era modesto e ao mesmo tempo ingénuo. Em 2015, fazíamos planos a 2 meses… de repente, em fevereiro ter um concerto marcado para julho já era um compromisso gigante. Éramos muito amadores e então não sonhávamos com nada disso. Nem é preciso ir tão longe, se calhar em 2020 também não sonhávamos com nada disto.
As coisas foram crescendo. Ao longo destes últimos 10 anos fomos progredindo devagar mas constantemente. Agora, vamos ver o que vem a seguir. Vamos se calhar tentar manter a linha e não descer muito, mas, por agora, é pensar no concerto de dia 6, que está quase aí.
Rita Ferreira
Departamento Grande Entrevista

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