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Maço na mesa, boa memória e dias contados: Domingos Coimbra (Capitão Fausto)

  • Foto do escritor: Mariana Resende, Marta Torres
    Mariana Resende, Marta Torres
  • 7 de mar.
  • 5 min de leitura

Costumam dizer que sonhar é o primeiro passo para transformar a realidade. Dá-se por verificado esse facto quando, em 2009, um grupo de cinco amigos, na luta por um sonho comum, transforma irreversivelmente a música moderna portuguesa, com shows esgotados de norte a sul do país. Ditados por um pragmatismo positivo, os Capitão Fausto lançam o seu primeiro álbum “Gazela” em 2011, marcando o início de uma brilhante carreira. 

 

Hoje, se o indie português tivesse de escolher uma cara para o representar, os Capitão Fausto seriam fortes candidatos. Depois de pisarem os maiores palcos nacionais e de encherem o Meo Arena, onde “ninguém parou de dançar”, apertaram os cintos e voaram até ao estrangeiro, onde mostraram que aquele pequeno país da Península Ibérica tem muito para dar. Mais do que marcar o indie (e garantir um lugar em Paredes de Coura), marcaram uma geração inteira, que, com medo de falhar, cometer erros, ou sofrer por amor (as famosas dores do crescimento), encontrou nas letras dos Capitão Fausto um espaço onde é permitido sentir tudo. 

 

E, porque a vida é feita de “escolhas”, o Tribuna escolheu ouvir o que mudou, o que ficou e o que ainda está por vir. No final de contas, já que não sabemos se amanhã estão melhor, hoje vamos aproveitar para saber tudo. 


  1. Os Capitão Fausto tinham 20 e poucos anos quando se estrearam em disco com “Gazela”, em 2011. Na luta pelos sonhos de criança, “quem corre por gosto não cansa”. Que aspetos se tornam imprescindíveis para ingressar no mundo da música e de que forma os jovens que pretendem explorar o mundo artístico podem ultrapassar os mitos e as dificuldades desse caminho?


Na verdade ainda tínhamos alguns membros da banda com menos de 20 anos! Não existem respostas muito certas e pragmáticas sobre esses aspetos imprescindíveis. Há muitas variáveis que não se controlam num meio por si só muito difícil. Há também muita sorte à mistura (e por vezes, há que saber agarrá-la).  


O meu conselho será trabalhar nas variáveis que se controlam: escolhermos aprender mais sobre o instrumento que tocamos, sobre como gravar, ouvir muita música, aprender a ouvir música em conjunto, no caso de uma banda… A força e a história de uma banda constroem-se também muito no tempo passado fora dos instrumentos, dos concertos e das salas de ensaios. Depois, aprender a conviver com o erro é uma condição essencial para quem quer criar. E em estúdios e ensaios, mais vale uma má decisão do que uma indecisão: no princípio é melhor fazer, experimentar. 


  1. São belas convenções que eu salto, eu nunca faço nem metade, do que me diz a vontade”. A sociedade dita muitas regras que procuram moldar a vida das pessoas, sendo a música um escape a estes ditames. Os Capitão Fausto “tentaram ser diferentes, a ver se conseguiam”, e mantiveram sempre a sua autenticidade. De que modo é que, enquanto músicos e enquanto banda, lidam com estas convenções que a sociedade procura impor à arte?


A música como braço direito, mais até do que como simples escape, está na base do nosso amor por ela. Noutra altura, o Tolkien era muito criticado pelo facto dos seus livros levarem as crianças e adolescentes para o mundo da fantasia, com um subtexto negativo e de um escape, demasiado fechado em si mesmo e fora da realidade. O C. S. Lewis saiu em sua defesa com uma maravilhosa frase, sobre a força da fantasia: He does not despise real woods because he has read of enchanted woods; the reading makes all real woods a little enchanted.” 


Creio que a música tem uma função semelhante na sociedade. E a nossa música sempre viveu muito de levar  universos sónicos e de esconderijos a formatos de canções, que depois acompanham o dia-a-dia de quem nos tem vindo a seguir. Há muita força em ser-se companhia, assim como há muita força em ser-se uma mensagem.


  1. Os Capitão Fausto estão longe de ter “os dias contados”. Depois de conquistarem o povo português, estrearam-se, este ano, em grandes palcos internacionais. Não tendo qualquer dúvida de que “muitas mais virão”, e fugindo de antever o futuro, mas antes procurando uma viagem ao passado, se hoje pudessem conversar com os Capitão Fausto de 20 anos, repletos de sonhos, expectativas, dúvidas e receios (o que faz parte de se ter 20 anos), o que lhes diriam?


Às vezes, os miúdos preocupam-se com coisas que pouco interessam, e nós perdíamos tempo com muita coisa acessória. Ao mesmo tempo, é sempre nessas entrelinhas que as bandas se descobrem e se definem. Mas diria o mesmo que disse no princípio da entrevista: no limite, mais vale uma má decisão do que uma indecisão. Em música, e no estúdio, as más decisões são na maioria das vezes reversíveis, ao contrário de más decisões numa cirurgia. E demasiadas indecisões fazem mal às bandas. 


  1. Morro na Praia” talvez seja uma das canções que melhor se assemelha àquela que é a experiência universitária de muitos estudantes. No último ano estamos a “20 passos de ser uns gajos formados, prontos a vingar”, nadamos exaustivamente contra a corrente, e, no final, não só o diploma não nos traz a satisfação que idealizamos, como temos a consciência de que nos perdemos pelo caminho. Para vocês, que certamente já sentiram estes impasses, qual é o papel da música no percurso de encontrar o caminho, quando o GPS está completamente perdido na sua orientação?


No nosso caso, vivemos um período de difícil equilíbrio entre a realidade da nossa banda, que já estava a ganhar bastante dimensão e a ter muitos concertos, e a nossa vida universitária, que cada vez mais ficava para trás enquanto seguíamos o nosso sonho. No nosso caso, a música não tinha apenas um papel acessório, era a razão pela qual a vida de universidade perdia terreno. E talvez a grande dificuldade foi o facto dos cinco sabermos que, de uma forma ou de outra, a nossa decisão de sermos músicos a tempo inteiro já estava tomada. Era uma questão de “quando”. Foi na altura do nosso terceiro álbum, “Capitão Fausto Têm os Dias Contados”.


  1. O percurso dos Capitão Fausto é uma subida constante e o aperceber de que não se foge ao envelhecimento. Crescer é, por vezes, sinónimo de desorientação, mas parece que é suposto chegar a uma altura da vida e definir um caminho para a mesma. Em que momento se sentiram mais próximos de encontrar uma direção certa?


Esse álbum, o “Capitão Fausto Têm os Dias Contados”, é um bom momento na história do nosso grupo. Cheio de episódios, decisões que acabaram por estar certas, e criativamente muito estimulante. 


  1. “Fantasia” é uma canção integrada no 5º álbum de estúdio da banda, Subida Infinita, lançado a 15 de março de 2024. Por coincidência (ou não), é também a música mais curta de sempre dos Capitão Fausto, não atingindo 30 segundos de duração. Não há “nada de mal” em viver para todo o sempre em fantasia, mas a verdade é que a fantasia é sempre pouco duradoura. Afinal de contas, o que é fantasiar para os Capitão Fausto?


A fantasia é a locomotiva da aventura!


A equipa do Jornal Tribuna, do Departamento “Grande Entrevista”,

Mariana Resende

Marta Torres

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