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Futebol e Dignidade: O Caso do Kosovo e da Palestina

  • Luís Alves
  • 28 de out.
  • 5 min de leitura

O futebol, muitas vezes visto apenas como um desporto ou um espetáculo de massas, assume, em alguns contextos, um significado político e humano de grande profundidade. Para povos que lutam pelo reconhecimento, como os do Kosovo e da Palestina, a simples presença das suas seleções nacionais em campo ultrapassa o domínio desportivo: é uma afirmação de existência, de identidade e de esperança.


O Kosovo declarou a sua independência em 2008, após anos de conflito e tensões com a Sérvia. Ainda hoje, o país enfrenta a recusa de reconhecimento por parte de vários Estados, como o Brasil, a Espanha e, sobretudo, a Rússia e a Sérvia, o que limita a sua plena integração internacional. Neste cenário, a sua adesão à FIFA e à UEFA, em 2016, representou muito mais do que um passo administrativo: foi o momento em que uma nação jovem pôde, finalmente, ver a sua bandeira hasteada e o seu hino ouvido antes de um jogo oficial. Para muitos kosovares, esse instante significou que, pelo menos durante noventa minutos, o mundo inteiro tinha de reconhecer a sua existência. O futebol tornou-se um espaço de dignidade, onde a identidade coletiva encontra palco.


Um dos maiores símbolos kosovares na atualidade não pertence ao mundo futebolístico: trata-se da cantora Dua Lipa, de origem kosovar, cujos pais fugiram da guerra dos Balcãs, que ocorreu na década de 1990 e deixou milhares de mortos após a dissolução da Jugoslávia. A artista não faz questão de esconder as suas origens — pelo contrário, fala fluentemente albanês e realiza, com frequência, espetáculos na capital, Pristina.


Juntamente com o seu pai, Dua Lipa organiza o Sunny Hill Festival desde 2018, com o objetivo de chamar a atenção do mundo para o Kosovo e atrair os holofotes para a sua terra natal. Grandes estrelas internacionais já participaram no evento, como Shawn Mendes, J Balvin e Bebe Rexha. Essa visibilidade que a cantora traz para a causa kosovar acaba por criar uma certa legitimidade do Estado do Kosovo na mente de milhares de pessoas em todo o mundo, funcionando como uma forma de soft power sobre a opinião pública global.


O soft power é um conceito das relações internacionais que se refere à capacidade de exercer influência de forma subtil. Ao contrário do hard power, que impõe valores pela força — como invadir um país militarmente ou impor uma cultura através do domínio —, o soft power atua pela sedução: propaganda, filmes, música, arte… Ter uma seleção de futebol é também uma forma de o Kosovo se fazer reconhecer internacionalmente e exercer soft power. E nem todos os países têm uma estrela pop mundial para os ajudar.


A Palestina vive uma realidade ainda mais dramática. Com um território fragmentado, sob ocupação israelita e marcado pela violência, o quotidiano palestiniano é permeado por obstáculos à mobilidade, à segurança e até à vida cultural. No entanto, desde 1998 que a seleção palestiniana é membro da FIFA, o que significa que, mesmo sem o reconhecimento político universal, existe um espaço onde a Palestina é tratada como igual. O futebol, neste caso, transforma-se numa espécie de refúgio e de símbolo de unidade: quando a equipa entra em campo, milhões de palestinianos espalhados pelo mundo sentem que a sua pátria, tantas vezes negada, ganha forma visível. É como se, a cada jogo, não fossem apenas onze jogadores a competir, mas todo um povo a correr, a lutar e a resistir lado a lado.


O futebol tem a rara capacidade de se transformar em metáfora da vida coletiva — um espaço onde se projetam identidades, sonhos e feridas. No caso da Palestina, essa metáfora torna-se dolorosamente literal: o relvado é um território possível, um pedaço de chão onde a pátria existe, mesmo quando a geografia a nega. Há poucos lugares no mundo onde o simples ato de entrar em campo carrega tanto peso simbólico. O futebol palestiniano é, há décadas, uma extensão da luta por reconhecimento e dignidade, uma afirmação de existência num mapa que insiste em apagá-los.


O caso da Palestina expõe o paradoxo do futebol moderno: enquanto as grandes potências desportivas e as federações internacionais celebram discursos sobre a inclusão e igualdade, estas mesmas permanecem silenciosas perante realidades que contradizem esses valores. A mesma FIFA que promove campanhas pela paz, raramente se pronuncia sobre o impacto das ocupações, das restrições de movimento ou da destruição de infraestruturas desportivas. Esse silêncio é político. E mostra que o futebol, embora se apresente como neutro, é também um campo de poder — onde o reconhecimento de uma bandeira ou o silêncio perante uma injustiça são, em si, escolhas ideológicas.


Há quem diga que o futebol não se deve misturar com a política. Mas, para povos como o palestiniano, essa separação é impossível. A política atravessa cada relvado, cada deslocação, cada gesto. Jogar futebol em Gaza ou em Ramallah é, de certo modo, um ato de resistência civil. E há uma beleza trágica nisso: mesmo o desporto mais global e comercializado do mundo conserva, ali, a sua essência comunitária — o jogo como expressão de vida, como tentativa de manter a dignidade num cenário de negação.


O futebol palestiniano não pede piedade nem exceções — pede reconhecimento. O mesmo reconhecimento que o Direito Internacional proclama, mas que o mundo hesita em concretizar. Talvez o campo de futebol seja, no fim das contas, o único território onde o povo palestiniano pode exercer a soberania que lhe é negada fora dele. E talvez seja precisamente por isso que o jogo ali tem outro significado: é um gesto de dignidade que resiste à erosão da esperança.


Há uma frase de Eduardo Galeano que ganha relevância neste caso: “O futebol é a única religião que não tem ateus”. No contexto palestiniano, essa fé ganha outra dimensão — não é apenas paixão desportiva, é sobrevivência emocional. Cada partida é uma oração em movimento, um fragmento de nação a renascer no olhar dos que assistem. A Palestina, quando joga, recorda-nos que o futebol pode ser mais do que espetáculo ou negócio; pode ser memória, pertença e, sobretudo, a persistência de um povo em continuar a sonhar, mesmo quando o mundo tenta acordá-lo à força.


Estes dois exemplos revelam a dupla dimensão do futebol enquanto instrumento político. Por um lado, funcionam como veículos de soft power, permitindo a afirmação internacional de nações ainda frágeis ou não plenamente reconhecidas. Por outro, são expressão de um desejo profundamente humano: o de ver a própria comunidade respeitada, representada e dignificada perante o olhar global.


Naturalmente, o futebol não apaga os conflitos políticos nem substitui as negociações diplomáticas. O Kosovo continua a enfrentar a oposição da Sérvia e dos seus aliados, enquanto a Palestina lida diariamente com as consequências de uma ocupação que compromete até a preparação desportiva — desde o acesso limitado a estádios e campos de treino até à destruição de infraestruturas e ao assassinato de atletas. Porém, estas dificuldades apenas acentuam a dimensão simbólica do desporto: o simples facto de estas seleções existirem e competirem já é, em si mesmo, uma forma de resistência.


Assim, o futebol torna-se mais do que um jogo. No caso do Kosovo e da Palestina, é uma linguagem universal que dá voz a povos silenciados, um palco onde a identidade se reafirma e onde, por momentos, a esperança se sobrepõe à adversidade. E talvez seja nesse cruzamento entre política, emoção e humanidade que reside a verdadeira força do desporto.


Luís Alves

Departamento Desporto


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