Há cidades que marcam - O Porto vive em nós
- Tiago Freire

- há 7 dias
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Uma semana no sul bastou para sentir aquela estranha sensação de ausência que só aparece quando estamos longe do lugar onde verdadeiramente pertencemos.
O meu regresso ao norte fez-se pela ponte, no no banco de trás do carro do meu pai, com os auriculares nos ouvidos e a ouvir “Porto Sentido”, de Rui Veloso. Tal foi suficiente para sentir que o coração regressou ao sítio certo - o Porto. O olhar perdeu-se, naturalmente, entre o Estádio do Dragão, o Rio Douro, o qual abraça a cidade, e aquela vista única do Porto a partir de Vila Nova de Gaia. Nesse momento, percebi, mais uma vez, aquilo que tantas vezes é difícil explicar: esta cidade não é apenas um lugar; é uma emoção, uma forma de estar, uma identidade que quem nasce aqui carrega sem precisar de a anunciar.
Apesar de ter sempre vivido na Maia, passei a maior parte do meu tempo a passear no Porto. Quanto mais passam os anos, mais sinto que foi um privilégio raro nascer aqui. Entre tantas cidades possíveis, entre tantos caminhos que a vida poderia ter escolhido, o destino deu-me esta (e, sinceramente, não podia ter pedido outra).
Na história, já a chamaram «Portus Cale», a união de «Portus» - porto ou lugar de embarque - com «Cale» - o antigo nome da povoação que aqui habitava. Dessa designação nasceu, posteriormente, o nome do nosso país. Como recorda o hino do clube da cidade, escrito por Afonso Lopes Vieira e composto por Frederico de Freitas, foi este nome “Que na história deu o nome a Portugal”. É curioso pensar que a origem do nome de um país nasceu aqui e, ainda assim, tantas vezes o Porto parece ter vivido à margem das decisões tomadas longe dele.
A história da cidade é feita de episódios que ajudam a compreender a personalidade de quem aqui vive. No longínquo ano de 1600, começaram a sair do Porto vinhos que rapidamente conquistaram o mundo. O Vinho do Porto tornou-se um símbolo da cidade e do país. Entre o rubi profundo e o âmbar elegante dos tawnies, há em cada copo uma parte da história destas margens do Douro. Contudo, o Porto nunca foi apenas vinho, comércio ou prosperidade. De facto, a cidade construiu-se também na resistência, no sacrifício, na luta e na honra.
Quer falemos da luta contra Napoleão Bonaparte - época em que a família real tinha partido para o Brasil e Portugal parecia perdido -, quer da Revolução Liberal de 1820, a população do Porto sempre mostrou ao país aquilo que sempre teve de especial: o poder do pensamento, da revolta e da manifestação. Ainda assim, a cidade não saiu derrotada das invasões napoleónicas (daí o seu nome «Invicta»). Assim como, após a Revolução Liberal, lutou e venceu contra séculos de absolutismo monárquico, dando origem à primeira Constituição portuguesa.
Alguns anos mais tarde, durante as guerras liberais, o Porto voltou a ser palco de um dos momentos mais marcantes da história do país. Entre 1832 e 1833, a cidade resistiu durante meses ao célebre Cerco do Porto, enfrentando as forças absolutistas de D. Miguel I de Portugal. Foi um período de enormes dificuldades, de escassez e de bombardeamentos constantes. Mesmo assim, o Porto não se rendeu.
Nesse momento, destacou-se a figura de D. Pedro IV de Portugal, também conhecido como D. Pedro I do Brasil. Este monarca encontrou no Porto uma cidade disposta a lutar pela causa liberal, daqui conduzindo a resistência que acabaria por mudar o rumo político do país. A ligação tornou-se tão profunda que, após a sua morte, o seu coração ficou guardado na Igreja da Lapa - gesto carregado de grande simbolismo. Entregou o seu coração à cidade, esta que também entregou o seu coração a D. Pedro I, ainda que de forma distinta.
A 14 de Maio de 1958, a cidade do Porto voltou a conquistar alguém, de seu nome General Humberto Delgado (o “General sem medo”). Na rua situada por baixo da varanda onde apareceu, quatro dias após a sua candidatura para a Presidência da República e após ter respondido com a célebre frase “Obviamente, demito-o!” (a uma pergunta relativa ao que faria com Salazar), esperavam-no mais de 100 mil pessoas. Nesse momento, teve a fé renovada, uma vez considerando que, com o apoio dos portuenses, seria possível fazer cair o regime.
Séculos depois, de forma completamente diferente, o Porto voltou a encontrar figuras que representavam esse mesmo espírito de afirmação que mostrou D. Pedro I. Uma dessas figuras foi Jorge Nuno Pinto da Costa. Por um lado, D. Pedro I representou a luta política contra um poder que tentava impor-se sobre o país; por outro lado, Jorge Nuno Pinto da Costa tornou-se, no universo do futebol, uma figura associada à afirmação de uma cidade que, durante décadas, sentiu o peso de um país profundamente centralizado.
O Futebol Clube do Porto (“F.C. Porto”) acabou por ultrapassar a dimensão desportiva, transformando-se num símbolo cultural. Num país onde tantas decisões se concentravam em torno de um único eixo, o sucesso internacional do clube ajudou a projetar a cidade, mostrando que o Porto podia afirmar-se de forma independente. Há momentos que explicam melhor a alma de uma cidade do que páginas inteiras de história. Um deles reporta-se a uma noite de título do F.C. Porto. A avenida dos Aliados transformou-se num mar de gente. Efetivamente, no meio daquela multidão, entre bandeiras e vozes, percebeu-se que, no Porto, celebrar nunca é apenas futebol; é sentir a cidade inteira a bater ao mesmo ritmo.
Talvez seja por isso que o tema do centralismo ainda hoje provoca tanta reflexão entre quem vive aqui. Na realidade, não se trata apenas de política ou de rivalidades regionais; trata-se da forma como o Porto sempre se viu a si próprio: uma cidade que trabalha, que cria, que constroi o seu caminho autonomamente. Porventura, é daqui que provém a conceção de que somos muito acolhedores.
Ao longo da história, o Porto demonstrou, repetidamente, que não precisa de pedir licença para existir ou para crescer. Desde «Portus Cale», passando pela Revolução Liberal de 1820, até ao Cerco do Porto, há uma linha invisível que liga gerações de portuenses.Essa linha chama-se «orgulho».
Quiçá, seja isso que sinto sempre que volto e vejo o Douro a refletir as luzes da cidade ao final da tarde. Há ali qualquer coisa que não se explica facilmente, uma sensação de pertença que não depende de monumentos, de títulos, nem de reconhecimento exterior.
Adoro ter nascido no Porto. Digo-o sem hesitação e sem necessidade de exagero. Adoro as velhinhas da ribeira, o cheiro a tripas, as discussões sobre qual é a melhor francesinha, ser bem recebido pelos portuenses e receber qualquer estrangeiro de igual modo, entrar num tasco e ver senhores com idade para serem meus avós a beber vinho tinto de uma malga, o cheiro a presunto e um simples “Ora Biba”, entre outras expressões (“queria um fino”; “está na hora de vergar a mola”; “bai no batalha”; “que briol”). De facto, até nisso (na língua) Portugal foi conquistado de norte para sul.
Entre todos os lugares possíveis, foi aqui que comecei a minha história. Quanto mais conheço o mundo, maior certeza tenho de que não podia ter pedido melhor cidade - “Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto”.
Tiago Freire
Departamento Crónicas

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