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Jardins de Sophia, flores de Celeste

  • Foto do escritor: Manuel Brito e Faro
    Manuel Brito e Faro
  • 28 de fev.
  • 2 min de leitura

“Muitos dos meus contos para crianças foram inspirados por praias, casa, jardins, parques e pinhais da minha infância. Assim, o “Rapaz de Bronze” foi pela quinta da minha avó e pelos feéricos jardins, bosques, avenidas, parques e pinhais que rodeavam a casa”.


Nota da Autora, “O Rapaz de Bronze” de Sophia de Mello Breyner Andersen


É sob o manto da noite que as flores despertam para uma vida secreta. Sempre abstraída do caos citadino e moderno, Sophia elege a serenidade como marca de sua obra - pega-nos na mão e retira-nos da festa, conduz-nos até um recanto secreto do jardim, onde nos conta coisas belas. É somente num espaço de quietude que a sua voz ressoa com maior nitidez.


Serão os cravos dos jardins da Sophia os mesmos que a Celeste colocou na ponta das espingardas dos soldados? Acredito que sim. Se é verdade que inúmeros filósofos tentam desvendar, num esforço admirável, a temível pergunta do que é a liberdade, Sophia prefere deixar os exercícios de raciocínio para outros. O seu universo é o literário, onde a liberdade não se explica – sente-se. Está no ecoar do mar, em flores que gostam de dançar, em fadas que nos salvam de perigos invisíveis e em cavaleiros que percorrem o mundo. Não deixa de ser relevante que a natureza ocupe o lugar central da sua escrita quando, segundo Sophia, foi também um elemento central da sua infância. 


A força da natureza é uma força livre e incontrolável, tal como o imaginário de Sophia. Ela mostra-nos como estar em comunhão com os elementos da Terra é estar em contacto com o coração, e estar conectado ao coração é, por sua vez, praticarmos a liberdade. Perante uma realidade de sofrimento para as suas personagens, ou para o sujeito lírico, pinta uma imagem de esperança – porque tudo muda, menos aquilo que nunca muda. Teremos sempre a certeza de que uma madrugada virá, “onde emergimos da noite e do silêncio”.


Fazermos perguntas é importante, senão mesmo crucial, para sabermos distinguir o verdadeiro do falso, o terreno do mítico. Mas quão bom é quando as perguntas são desnecessárias e quando podemos confiar nos nossos sentimentos para nos dizerem a verdade. Celeste Caeiro contou que, apanhada de surpresa pela revolução, um soldado lhe pediu um cigarro, mas Celeste não tinha. Assim, deu-lhe a única coisa que tinha para dar: os molhos de cravos, tendo-lhe dito: «Se quiser tome, um cravo oferece-se a qualquer pessoa». O resto da história já é conhecida, o soldado aceitou e pôs a flor no cano da espingarda. 


Talvez apenas regressando às nossas origens, a um espaço de harmonia com a natureza, podemos na nossa vida moderna identificar “o abutre e a cobra” de que Sophia nos alerta, que agora encontram novas formas de se esconder e camuflar, antes de atacar.

Celeste Caeiro veio a falecer no passado dia 15 de novembro, no mesmo ano em que se assinalou o 20º aniversário da morte de Sophia de Mello Breyner. O legado destas mulheres lembra-nos que a natureza fará a sua marca em nós, desgastar-nos-á e nos fará sofrer, mas será para sempre a inspiração decisiva do Homem.


Manuel Brito e Faro Departamento Crónicas

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