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Jogos de bilhar, fumo e histórias por contar: Nunca Mates o Mandarim

  • Foto do escritor: Marta Torres, Rita Ferreira
    Marta Torres, Rita Ferreira
  • 28 de fev.
  • 12 min de leitura

Composto por três jovens “entre o poético e o mundano, com pouco tempo para queimar”, Nunca Mates o Mandarim nasceu em 2022 e, desde então, aventura-se pelo mundo da música portuguesa. João Amorim (voz), João Campello (bateria) e Manuel Dinis (guitarra) querem viver da sua arte e tocam, num estilo indie pop, com melodias envolventes e cenários lusos como pano de fundo, sobre a essência de ser português, a juventude, os sonhos e os desafios que esta traz.


Desde o primeiro single, Marie, até ao lançamento, em janeiro deste ano, do seu debut álbum, Bola de Bilhar, o percurso tem sido desafiante, com originais que encontram ressonância em todos os que os ouvem e com reinterpretações de clássicos do nosso país, como Coisinha Sexy e A Bela Portuguesa.


Porque a ambição não deve ficar no imaginário, conquistaram os portugueses e pisaram ilustres palcos nacionais, com destaque para a sua atuação no Primavera Sound Porto, em 2025. O reconhecimento não veio apenas do público que os admira, mas também dos seus pares, tendo sido a banda escolhida pelos NAPA para participar no Festival da Canção 2026.

Com a crença de que a arte ainda pode ser um lugar de encontro, de protesto e não de ganância, o grupo é um reflexo de um conjunto de artistas que apostam numa vida dedicada à música, grupo esse que vale a pena explorar, numa lembrança da velha máxima de que “Quem só sabe Direito, nem de Direito sabe”. Neste sentido, o Tribuna foi revisitar o caminho já feito e perceber aquele que ainda falta percorrer, o que move três jovens que procuram realizar um sonho e o que os faz seguir o apelo de Eça a que se recusem a tocar à campainha.


  1. Faz parte da experiência de se ter 20 anos querer “um lugar em cima da areia que nem a meias podemos pagar [1]”. Contudo, também vivemos no país do “um dia, vou reclamar [2]”, que hoje não dá muito jeito. Entre o sonho e a realidade, a luta e a procrastinação, o que é que fez um projeto como o vosso sair do imaginário, ganhar forma e quem sabe, um dia, chegar a Paredes de Coura?


João Amorim: Há uma ética de trabalho: nós, desde o início, dissemos que isto tinha de ser uma coisa a sério. Portanto, começou com trabalho e uma boa dose de sorte. No primeiro concerto que demos, obviamente para amigos e família, num sítio que tivemos a sorte de nos ter acolhido, tínhamos lá duas ou três pessoas do TikTok, que depois viram o vídeo e gostaram. A partir daí, essas 2 ou 3 transformaram-se em 4 ou 5, em 40 ou 50. Temos a sorte de ter gente em que, desde o início e de alguma forma, isto ecoa. 


Manuel Dinis: Eu acho que outro fator que nos ajudou a dar o salto e a começar a fazer coisas é sermos um grupo. É diferente ser só uma pessoa, sozinha, a tentar começar tudo do zero, ou três pessoas juntarem-se, com ambição e com valências diferentes. Acabamos por nos puxar, um bocadinho, uns aos outros e conseguimos ter vantagens em alguns pontos que, individualmente, não teríamos. Ajudamo-nos os três nesse aspeto: essa dinâmica ajudou-nos muito a começar. 


João Campello: Acho que é isso. Acho que cada vez trabalhamos mais, mas também cada vez nos divertimos mais. Também é importante dizer isso.


  1. Com alusões mais ou menos óbvias a pessoas, sítios e episódios típicos da vida portuguesa, muitas vezes captam experiências que nem sabíamos ser tão comuns. Estas referências surgem de forma natural, por escreverem sobre aquilo que vos é mais próximo e familiar, ou há também uma intenção consciente de celebrar e dar visibilidade a esses contextos que moldam a vossa sonoridade e a vossa história?


João Amorim: Eu acho que há um “quê” de sociológico nessas observações sobre o mundano, sobre essa portugalidade, que obviamente acabam por funcionar muitas vezes como metáforas. Portanto, sim, é preciso conhecer, mas, ao mesmo tempo, é uma coisa que, pelo menos, eu, ao escrever as letras, gostaria de conhecer melhor. Assim, parte de um lugar de desconhecimento. Acerca das referências mais diretas, toda a gente tem referências; nós simplesmente não escondemos as nossas assim tão bem e isso acho que vem de muitos lugares, mas um deles, sobre o qual tenho refletido muito ultimamente, será o hip-hop. Eu cresci a ouvir muito hip-hop e as interpelações são um dos seus pilares fundamentais - acho que isso de alguma forma deve ter transbordado para este mundo do indie pop.


Manuel Dinis: É ele (João Amorim) que escreve as letras. Eu já tentei escrever uma letra ou outra, não para estas nossas canções, mas dou por mim, em muito menor escala e em incomensuravelmente menor qualidade, a sentir também o que o João sente.


  1. Ainda este mês vão participar no Festival da Canção, com Fumo. Sendo um desafio diferente do habitual, houve alguma mudança, tanto na forma como compuseram a canção como na própria preparação da atuação?


João Campello: Na composição da música mudou um fator muito importante que é o seguinte: foi a primeira música que compusemos de raiz, nós os três, ao mesmo tempo e em conjunto. Em todas as músicas que tínhamos composto até agora, tinha sido um ou dois a trazer uma ideia pré-feita, um conjunto de acordes ou uma melodia básica, e os outros deram os seus inputs. Mas, nesta, estivemos três dias em estúdio a tentar compor uma música de raiz e depois o João escreveu uma letra. Portanto, a composição da música em si mudou bastante, mas acho que continua a pertencer ao nosso catálogo de uma forma consistente, ou seja, não foge de uma maneira negativa ao que nós somos, acho que nem foge de todo. 


João Amorim: Quanto à atuação, é obviamente uma megaprodução. Só para referência, nesta mini tour de apresentação do álbum, o maior investimento que fizemos foi comprar uma mesa de jogo no OLX por 50 euros, para haver uma parte mais performativa. Aqui (no Festival da Canção) temos uma pessoa que nos está a ajudar na realização, uma pessoa que nos está a ajudar na direção criativa… Há todo um elemento de performance e de show que não existe nos concertos habituais. Só aí há uma complexidade enorme, sobretudo porque estamos a falar do Festival da Canção, que não é apenas um concerto transmitido ao vivo, mas é um espetáculo no verdadeiro sentido da palavra. Nós, por muito que até gostemos desta vertente do espetáculo, vamos ter uma abordagem minimalista, é muito mais a nossa veia. Portanto, respondendo à pergunta, o que está a ser diferente é muito essa vertente do espetáculo. Ainda não tivemos ensaios, mas vamos tê-los para a semana. A RTP é uma equipa enorme, são mil assuntos diferentes sobre os quais temos de “andar em cima”. Budgets muito maiores, uma equipa muito maior, que felizmente também está toda a começar, como nós.


  1. Num mundo ao minuto, em que é exigida urgência em tudo o que nos pedem, parece cada vez mais importante encontrar momentos de silêncio, de calma, de introspeção. Na idade de sentirmos que estamos sempre atrasados para alguma coisa, seja para alcançar os nossos sonhos, seja para descobrirmos quem somos, qual é o papel da música em desacelerar tudo?


Manuel Dinis: Eu acho que o papel da música, apesar de não conseguir encontrar uma palavra muito adequada, é importantíssimo. Acho que não só ouvir música, mas, do ponto de vista de criar música, o momento de criação é uma forma de nos transportar, um bocadinho, para fora do mundano. Ou seja, há muitas coisas a acontecer, desde o autocarro que vamos ter de apanhar para ir embora, etc., mas, quando estamos ali, só existe aquilo - pelo menos para mim é assim. É uma forma de abstração que acaba por nos ajudar a parar e curar essa urgência. 


João Amorim: Acho que, de um ponto de vista mais prático, nós (e aqui falo por todos), assumidamente, temos o sonho de poder, um dia, viver da música, e, ainda, não se concretizou e é dificílimo e vai ser dificílimo se algum dia acontecer. Portanto, por um lado, temos sempre esta sensação de que isto já devia ter sido ontem, que temos o tempo a fugir-nos um bocadinho das mãos, mas, ao mesmo tempo, passo a passo, eventualmente, lá chegaremos, ou, se não chegarmos, também está tudo bem. 


João Campello: Acho que é isso, há ali um momento de pausa quando se está envolvido em música criativamente. Mesmo em diferentes estilos de música (não tem de ser baladas), quando componho música e levo ideias à banda, há um momento de estar virado só para isso e rejeitar quase qualquer ideia exterior, não de uma maneira negativa, mas qualquer input exterior. Fico muito resguardado nesse momento.


  1. As canções nascem no estúdio, mas é no encontro com o público que realmente ganham vida. Bola de Bilhar era um álbum bastante esperado e, numa entrevista anterior, mencionaram que certas músicas seriam escolhas mais arriscadas. Passado um mês e três concertos de apresentação, como é que sentiram que foi a receção do público?


Manuel Dinis: Acho que foi incrível. As músicas que achávamos que iam ter mais risco, como bola de bilhar e tudo mais, foram muito bem recebidas quando as tocámos ao vivo. Não sei se vocês também sentiram isso, “Joões”.


João Campello: Nós temos muitas canções compridas. O João (Amorim) escreve, escreve, escreve e não põe um ponto final. Acho que gostamos e não acho que seja algo que vamos mudar, não fazemos uma canção a pensar na duração total. Fizemos isso para o festival da canção porque fazia parte do regulamento, mas no álbum a nossa preocupação foi que o álbum tivesse cerca de 40 minutos, para caber num vinil, que é mais ou menos o limite. E, por exemplo, a música 12 badaladas, que é a primeira música do álbum e a mais comprida, tem mais de 6 minutos. Comentámos que se calhar a música iria ser menos bem recebida por causa da duração e acho que foi exatamente o contrário, está a ser muito bem recebida. Mesmo músicas como a que o Manel disse, bola de bilhar, não só ao vivo, nos concertos, mas também na versão de estúdio, estão a ser bem recebidas. O álbum está coeso e consistente, acima de tudo.


João Amorim: Essa discussão acho que foi acerca do single potential, da 12 badaladas. Sim, foi um risco, mas mais ou menos calculado. Mas obviamente que estamos surpreendidos. Ao vivo, damos um arranjo sempre um bocado diferente às músicas, especialmente naquelas que gostamos mais. Mas foi refrescante perceber que as pessoas gostaram desse desafio de alguma maneira. Penso que muitas delas saíram do nosso álbum desafiadas, o que não era algo que estavam à espera. E recebemos algumas mensagens nesse sentido, do tipo “este álbum não é para mim”, “preferimos as vossas cenas antigas”. Nós não.


  1. Os concertos ao vivo nem sempre correm como planeado e, muitas vezes, são os imprevistos que acabam por ficar na memória. Lembram-se de algum episódio inesperado num concerto que, mesmo que na altura vos tenha apanhado de surpresa, hoje já seja motivo de risos?


João Amorim: Neste último concerto, na Desvio na Mealhada, há uma parte da música em que digo “pousa o maço na mesa”, que é uma referência aos Capitão Fausto, e faço o gesto de pousar o maço na mesa, a tal mesa de bilhar que nós compramos. Para vos dar contexto, na tal mesa de jogo que compramos, o nosso teclista “G” (Manel G), no início de cada concerto, pousa um maço de cigarros e um isqueiro para eu a meio do concerto ir lá fingir que fumo um cigarro. Ele esqueceu-se de pousar o maço na mesa e ficou com ele. Eu aponto para a mesa a dizer “pousa o maço na mesa” e não vejo o maço, olho para o “G”, que está exatamente atrás da mesa, e ele vai lá, dá uma corridinha, pousa o maço. 


Manuel Dinis: A mim também aconteceu… foi num dos últimos concertos, não o de Lisboa, mas o de Braga. Na primeira música, precisamente na 12 badaladas, estava a fazer um acorde normal e uma corda soltou-se. Tive de aguentar e tocar a primeira música sem que ninguém notasse que me tinha rebentado uma corda e depois troquei para outra guitarra, que é a do Campello. A guitarra dele estava super apertada e passei mais de metade do concerto a tocar assim e a fingir que estava tudo bem. Foi assim um momento caótico, mas que já no próprio dia, depois daquilo, conseguiu tornar-se num momento de “pá acontece” e engraçado.


João Amorim: Eu nem reparei que tu tinhas trocado de guitarra; só na última música é que fiquei tipo “essa guitarra não é tua”.


João Campello: Acho que já aconteceram vários momentos caóticos, literalmente caóticos. Até nestes três concertos, porque já demos concertos em condições loucas. Estes três concertos estavam um bocado mais bem preparados que tudo o resto, portanto havia menos probabilidade de haver algum momento desses. Acho que o pior que me pode ter acontecido foi lá em Braga, em que me caiu uma baqueta em Coimbra B, logo a seguir à parte em que o João (Amorim) diz “ando em Coimbra B, perdido”... e perdi a baqueta. 


Outra aconteceu num dos três concertos. Nós temos muitos guias visuais, ou seja, quando o Amorim ou o Manel fizer aquilo, sabemos que vai para outra parte, por exemplo. E há uma parte do espetáculo, em Três noites, em que eu tenho de me guiar auditivamente pelo que o João (Amorim) está a fazer e, logo no Porto, ele virou-se para trás e eu disse-lhe “Olha, não te ouço, não ouço a tua guitarra”, então ele virou-se para mim e teve de ficar assim a tocar para eu ver a posição dos dedos e tentar adivinhar o que estava a fazer. Isso aí foi caótico, mas acho que depois “engrenou” bem na música.


  1. Falaram, há pouco, da questão de ser muito difícil viver da música em Portugal. Vivemos num país que menospreza a cultura e não dá o devido valor aos seus artistas. Como é que, enquanto músicos, encaram este desinteresse?


João Amorim: Nós dizemos isto de um ponto de vista bastante privilegiado. Como dizia no início, tivemos muita sorte e, em poucos anos de banda, estamos numa posição, não digo confortável, porque não é, mas mais confortável do que era há um ano, dois ou três. Portanto, ainda que partilhe das tuas críticas, e é um problema sistémico, não só em Portugal, na verdade, acho que caminhamos para um mundo em que a cultura, a cada dia que passa, vai sendo mais menosprezada, sobretudo quando há problemas como a guerra em cima da mesa, não é? 


O Elvis Presley foi recrutado para a guerra. Se nós, um dia, conseguirmos uma isenção, porque há uma Terceira Guerra Mundial e nós conseguimos ir tocar para os militares, já acho que é maravilhoso. Mas sim, é um problema sistêmico e eu não acho que vai mudar tão cedo. 


A minha perspetiva quanto a esse silenciamento é que é uma coisa muito mais macroeconómica, é um problema sistémico, estrutural e, mesmo assim, nós tivemos a sorte e temos a sorte de não gastar dinheiro a fazer música. Por exemplo, muitos colegas nossos, para pagar um videoclipe, para dar um concerto, em que têm de pagar aos músicos e aos técnicos, estão a gastar dinheiro do seu bolso - trabalham durante a semana para gastar dinheiro na música ao fim de semana. 


João Campello: Eu tenho, talvez, um ponto de vista que vira um pouco ao contrário a tua questão. Eu acho que tenho sorte e nós os três temos sorte, porque a música é a forma de arte ou cultura mais fácil de fazer dinheiro, em Portugal, onde é difícil fazer dinheiro, em geral.


Eu acho que aos escultores, pintores, mesmo realizadores, é-lhes muito mais difícil fazer dinheiro e conseguir sustentar-se com qualidade de vida a partir da sua arte. Portanto, acho que até temos sorte de gostarmos de fazer música, porque, se eu gostasse de fazer escultura, eu iria querer viver da escultura e, se calhar, não ia conseguir. Da música, se calhar não consigo, mas com um bocadinho mais de qualidade do que das culturas. 


João Amorim: O que ainda melhor prova este desprezo pelas artes, quando elas são tão fundamentais, não é? Aliás, eu lembro-me precisamente na altura do COVID, quando os artistas, se já tinham dificuldades, passaram a tê-las ainda mais. O que é que toda a gente em casa estava a fazer? Estava a ver filmes, séries e ouvir música. Há aqui uma dicotomia no mínimo interessante.


  1. Se Rousseau defendia que o ser humano era corrompido pela sociedade, Eça de Queirós apelou-lhe a que não matasse o Mandarim e não cedesse à ganância. Num mundo em que tantos se tornaram mestres a tocar a campainha, acreditam que, na música, ainda é possível não matar o Mandarim? 


João Amorim: Há muita gente, na música, que mata o mandarim, na música e em toda a arte, vida e política, em todos os ramos. Acho que falo por todos, mas nós temos uma noção da responsabilidade social e procuramos transmiti-la através das nossas músicas. Esperemos que quem ouça receba a mensagem. Portanto, vamos sempre apregoar que não se mate o mandarim, mas, às vezes, esse apelo pode cair em saco roto. Contudo, no que a nós nos toca, seremos sempre vocais e há sempre, e cada vez mais, gente disposta a ouvir, o que é bom. 


Manuel Dinis: Acho que nós não matámos o mandarim. Aliás, seríamos muito hipócritas se o matássemos.


João Campello: Era problemático.


Marta Torres

Rita Ferreira

Departamento Grande Entrevista



[1]: Donos da Terra (2022), Nunca Mates o Mandarim

[2]: Donos da Terra (2022), Nunca Mates o Mandarim

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