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José Alvalade — um legado sem igual

  • Foto do escritor: António Pinho
    António Pinho
  • 3 de nov.
  • 9 min de leitura

A 10 de outubro do ano de 1885, nasce o coração do Sporting. Em Lisboa mais precisamente, em Cascais nasce um homem que ficará para sempre na memória de todos os sportinguistas mas, acima de tudo, sendo aquilo que possui de especial interesse para o desenrolar desta exposição, uma figura incontornável na história do desporto nacional (que vai muito para além do desporto-rei, o futebol), cujo legado permanece bem vivo na memória coletiva: José Alfredo Holtreman Roquette, popularmente chamado José Alvalade, um nome bem mais fácil de pronunciar e igualmente mais elucidativo. 


Desse modo, aquando da celebração dos 140 anos do seu nascimento (e, ironicamente, dos 107 da sua morte, a 19 de outubro de 1918), constitui sempre uma experiência interessante revisitar e explorar a sua obra, percorrendo os grandes empreendimentos de que tomou parte ao longo da vida. Tal afigura-se como um exercício algo desafiante, dado que, apenas de há uns anos para cá é que o mesmo se tem vindo a revelar possível, pelo menos de uma forma mais completa e precisa, por força da disponibilização do espólio e arquivo pessoal da antiga figura leonina pelo também ex-dirigente e presidente do clube, seu descendente e trineto, José Roquette. 


A esta informação acresce ainda a possibilidade de consultar diversos processos e outro tipo de documentos e fontes, nomeadamente, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, bem como o Inventário Orfanológico de José de Alvalade, que facilitaram uma reconstituição do meio social e familiar em que viveu, concebendo uma maior fidelidade e veracidade aos factos e acontecimentos, até então tidos como incorretos ou indeterminados. Parte de todo este processo de investigação culminou na publicação de uma obra em abril de 2022, com o título “Um rapaz magro, esguio, de uma calma britânica - Biografia de José Alvalade”, da autoria de Luís Augusto Dias, e com a colaboração de Paulo J. S. Barata e Vasco Borges de Campos, que serviu de base para a redação deste artigo e cuja leitura, para os demais interessados no tema, se recomenda vivamente. 


Oriundo de famílias com posses e inseridas na alta sociedade lisboeta dos finais do século XIX, José de Alvalade cresce na capital, envolta num clima sociocultural extremamente dinâmico e frenético, onde o desporto, como movimento de massas, ia crescendo e conquistando o seu espaço como um fenómeno de relevância social. Padecia de um estado de saúde relativamente débil, provavelmente de índole respiratória, que levou os médicos de família a aconselhar o seu avô, Alfredo Holtreman (advogado de renome da sociedade lisboeta, proprietário, à época, de um vasto património imobiliário, situado na área onde hoje se encontra o Estádio de Alvalade), a mudar-se para a zona rural da capital, no Lumiar, onde vem a adquirir outra propriedade (mais tarde conhecida como Quinta de Alvalade). Tal mudança, que ocorreu por volta do ano de 1890, deveu-se à qualidade do ar que caracterizava esta zona da cidade e foi a mais indicada atendendo à condição do seu neto, sendo-lhe recomendada a prática de atividades desportivas e “exercícios higiénicos ao ar livre”, com toda a “fineza do ar que se respira nos jogos em campo”. 


José de Alvalade aqui passou grande parte da sua infância, à guarda do seu avô; não se lhe conhece uma grande convivência junto dos pais, que o entregam aos seus cuidados, quando ainda muito novo. Movimenta-se junto da high life lisboeta, nomeadamente, em encontros com a família real e o seu círculo mais próximo em Cascais, onde a família possuía um chalet de férias, junto à Praia da Rainha, assim designada por ser a praia de eleição da Rainha Dona Amélia, mulher de D. Carlos. Tal apenas era possível devido ao estatuto social que o avô havia adquirido com a concessão do título de Visconde pelo Rei, a troco de uma elevada quantia, conseguindo, finalmente, o reconhecimento social, para si e para os seus netos, que tanto ambicionara. 


Tanto quanto se conhece, terá tido uma educação doméstica, habitual à época nas famílias mais abastadas, com o recurso a “mestres ao domicílio, de institutos religiosos”, dedicando-se à aprendizagem de línguas e da matemática, entre outras disciplinas, contando, ainda, com o auxílio da vasta biblioteca que possuía o Visconde de Alvalade. O neto, José, demonstra extrema facilidade em expressar-se, que se manifesta num raciocínio lógico e um estilo elegante de escrita, evidente nos artigos e peças que redigiu, bem como em jornais e cartas que terá escrito. Detém uma estreita relação com o “avozinho”, como o trata em diversas passagens, que terá mandado construir um court de ténis na mansão dos Holtreman/Alvalade, para que pudesse praticar a modalidade livremente, como referido anteriormente. A edificação deste espaço abrirá inúmeras portas para o jovem Alvalade, proporcionando a criação de diversas amizades, que influenciarão o rumo da sua vida significativamente.  


É neste contexto, então, que se cruza com alguns jovens rapazes, como os irmãos Stromp, (José, António e Francisco) e os Gavazzo (Francisco e José Maria), que habitavam ali perto, na zona do Campo Grande, e que vêm, mais tarde, a ter um papel crucial na realização do grande projeto da sua vida: a criação de um clube desportivo, que abordaremos já de seguida. Este grupo começa, então, a usufruir do campo de ténis privado da residência dos Alvalade, bem como do campo de futebol, que já aí existia, participando em diversos encontros desportivos, a que se vão juntando cada vez mais elementos, formando um grupo de amizades cada vez mais vasto. 


O companheirismo e as relações que se vão fortalecendo culminam na formação de um clube desportivo em finais do ano de 1904: o Campo Grande Foot-Ball Club. Conta com, aproximadamente, 50 associados, grande parte deles jovens amigos e alguns familiares, dirigido, também, pelos próprios, e desenvolvendo as suas atividades na Quinta de Alvalade, na mansão da família de José. Porém, ao contrário do que sucedia com outros clubes e associações da mesma natureza da cidade, como o Sport Lisboa ou o Cruz Negra, que disputavam partidas desportivas entre si e participavam noutras competições, no clube dos nossos amigos acabou por criar-se uma tendência centrípeta, não passando da dinamização de encontros e confrontos desportivos entre amigos e os seus associados, não participando, nomeadamente, do primeiro torneio de futebol de Lisboa, realizado em 1906, pelos seus homólogos acima mencionados. Neste sentido, o clube vai envergando por uma via cada mais recreativa (organização de piqueniques, convívios, festas), servindo como um meio de exibição social de uma elite burguesa e diletante, acarretando avultadas despesas e, acima de tudo, promovendo e praticando uma cultura em que em nada se reviam os jovens que o haviam fundado. 


É então, neste clima de descontentamento com o perfil de atividades e com o rumo que o clube estava a tomar, que José de Alvalade e alguns dos seus amigos mais próximos (ficando conhecidos como os “dissidentes”) abandonam o Campo Grande Foot-Ball Club e “põem mãos à obra” para iniciarem os trabalhos para a fundação de um novo clube. Com o auxílio logístico e financeiro de seu avô, começam a idealizar um projeto para o empreendimento, reunindo as condições necessárias, desde logo, a nível de infraestruturas e do procedimento legal do registo da nova associação junto dos serviços administrativos do Reino, que constituía um requisito essencial para o seu licenciamento, tarefa que ficou a cargo do Visconde de Alvalade, devido à aptidão que detinha para os campos legais e da justiça. 


Surge, então, o Sporting Clube de Portugal, a 1 de julho de 1906: um novo clube, verdadeiramente vocacionado para a prática desportiva, como ruptura em relação à linha que o antigo clube de que os seus fundadores haviam tomado, pretendendo afastar os formalismos e regras de etiqueta da alta sociedade que o caracterizavam e, assim, fomentar um clima mais arrojado e acessível, nesta nova associação. Solidificado o novo projeto desportivo, José de Alvalade assume um papel preponderante na estruturação do clube, desde o planeamento técnico das instalações desportivas bem como da configuração das modalidades que vêm a ser praticadas, requerendo ao seu amigo Francisco Gavazzo, entretanto emigrado para França, que lhe enviasse todos os livros e documentos considerados de referência na prática desportiva, como o tipo de materiais utilizados nas redes de ténis, as dimensões de campos, ”tratados de ginástica e seus exercícios”, detalhando-lhe, igualmente, todos os procedimentos relativos ao desenvolvimento do clube e seu pleno funcionamento. 


Uma das preocupações de Alvalade incidia ainda sobre as condições de higiene e conforto dos mais diversos equipamentos desportivos à disposição dos atletas, de onde constam duches, balneários, cozinhas, salas de convívio, salas de fisioterapia, para além de dispor de um corpo técnico de profissionais, almejando um patamar de excelência desportiva e criando as condições para tal. Desempenha ainda funções administrativas: preside as reuniões sobre o quotidiano do clube, bem como a manutenção dos mais diversos equipamentos (rega e pinta os campos de ténis, ocupa o lugar de atletas que não compareçam, mesmo quando isso vá contra a sua vontade). É um verdadeiro “faz-tudo”, revelando uma enorme energia e ambição em transformar o clube num “grande entre os grandes” e “um dos maiores da Europa”. 


Prosseguem os trabalhos a um ritmo entusiasmante. Com o crescimento do clube e o aumento da sua popularidade, são introduzidas novas modalidades, como o atletismo e o ciclismo, de cariz mais popular, contribuindo, desta forma, para grandes feitos do clube e para a arrecadação de diversos troféus: no caso do atletismo, destaca-se António Stromp, que acabou por ser o primeiro atleta olímpico do Sporting, podendo, ainda a este respeito, mencionar-se a dinamização dos Jogos Olímpicos Nacionais de 1912, que serviam para apurar os atletas que representariam Portugal nos Jogos de Estocolmo, na Suécia. 


Por esta altura, José vê o seu estado de saúde a deteriorar-se, refugiando-se nas funções diretivas e de gestão corrente do clube, à medida que este ia dispondo de melhores e mais bem preparados atletas, sendo que o próprio, por sua vez, nunca havia sido um atleta de eleição. Aqui, o ténis vai perdendo algum fulgor e importância, passando a servir como uma modalidade de apoio às restantes, como uma forma de contribuir para a manutenção do bem-estar físico e atlético dos indivíduos. Verifica-se algo semelhante com o críquete, que é praticado, na sua grande maioria, por atletas estrangeiros, e que vai, aos poucos, vendo a sua importância reduzida. 


Aliado a isto, José de Alvalade passa a adotar um registo de sensibilização social, se quisermos, na popularização e generalização do desporto e da prática desportiva regular e no papel que os clubes detêm neste processo. Num artigo publicado a 30 de abril de 1910, na revista Tiro e Sport, procura expor os benefícios do exercício físico para a higiene e a saúde, como uma componente importante para a formação intelectual, moral e social de toda a população, sustentando a sua argumentação em especialistas da época, do pensamento moderno europeu e divulgadores da fisioterapia, como Philippe Tissié, manifestando-se, no geral, um acolhimento da corrente de generalização do desporto, que já se verificava um pouco por toda a Europa. A sua maior inovação reside na defesa de um verdadeiro desporto de massas, que não se restringisse apenas a uma minoria social privilegiada que o praticava, e, por outro lado, dado que o poder político não se revelava interessado nestas questões, na ideia de que deveriam ser os clubes desportivos a incentivar e a criar as condições para dar resposta a estas necessidades. 


Neste sentido, pugna por uma lógica mais inclusiva no desporto, defendendo a inclusão de mulheres, crianças e jovens e a criação de escalões etários, algo inédito à época. Enfatiza, ainda, o rigor, que deve pautar e ser inerente à prática desportiva, em conjunto com um convívio saudável e uma conduta marcada pela ética pelos demais intervenientes no espectáculo desportivo: aquilo que hoje conhecemos, vulgarmente, por fair play. 


Os estatutos do clube, aprovados aquando da sua fundação, em 1907, espelham também estes princípios a que aludimos acima, nomeadamente, nos seus três primeiros artigos, de onde se destacam: “a inclusão de ambos os sexos (art 1º)”, “a educação física dos sócios e dos seus filhos e tutelados,... dedicando-se à esgrima, equitação, natação,... e outros destinados ao desenvolvimento e conservação das forças musculares (art 2º)” e procurando “beneficiar, consoante os seus recursos, instituições de beneficiência pública; organizar cursos práticos gratuitos,... para a resolução do utilíssimo problema do avigoramento da raça portuguesa e, pelo auxílio que se propõe a prestar,... o Sporting Clube de Portugal é uma perfeita associação de utilidade pública” (art 3º). 


No entanto, vai surgindo, no seio da classe diretiva do clube, uma onda de oposição, muito devido a um empreendimento levado a cabo por José de Alvalade, com o apoio financeiro do avô, o Stadium de Lisboa, que constituía uma evolução considerável em relação às instalações desportivas do clube até meados de 1912, vista, por muitos, como “um capricho pessoal do próprio”. Tal resulta na saída da sua direção, em novembro desse ano, o que proporcionou um clima de hostilidade para com os Alvalade e o seu afastamento dos destinos do clube. 


Faleceu então a 19 de outubro de 1918, com 33 anos, vítima de uma grave “febre tifóide”, segundo o registo de óbito do hospital. 


Embora não se tenha reconciliado totalmente com o Sporting, após a saída da liderança do clube, a sua obra e legado ficarão para sempre marcados na história do clube e do desporto nacional. Prova disso é a atribuição do seu nome, primeiro ao que restava do Stadium de Lisboa, em 1947; em 1956, ao novo recinto desportivo, que foi erguido após a demolição do anterior no mesmo local; e, claro, ao atual estádio, construído em 2003, que todos tão bem reconhecemos. 


Mais do que o património físico que possa ter deixado, importa relembrar o impacto que teve na afirmação do desporto em Portugal; a sua contribuição para uma prática de exercício físico aberta a todos, independentemente do meio de onde provinham, do cumprimento de valores éticos e da exigência e rigor no desporto. Deste modo, e à luz do que fomos expondo ao longo do artigo, crê-se infeliz a tentativa de continuar a apontar um cariz aristocrático e puramente elitista do clube nos seus primeiros anos, numa tentativa de o denegrir ou menosprezar. 


Obrigado, José de Alvalade! O teu sonho foi cumprido; mas duvido que alguma vez tenhas pensado que o teu nome ficaria para a posteridade e seria referido milhares de vezes ao dia, e que a tua grande obra, o Sporting Clube de Portugal, viria a atingir patamares de tal elevação e excelência, como se vê, todos os dias, nos estádios e pavilhões de Portugal e um pouco por todo o mundo!


António Pinho

Departamento Desporto

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