Made in Oporto, Remastered

Cresci no Porto e o Porto cresceu comigo: posso dizer que tive a oportunidade de testemunhar, ao longo da minha vida, a completa transformação de uma cidade. De grande parte do que eram os prédios históricos do Porto, restam hoje apenas as fachadas – ironia de que os mais céticos se servem para questionar as mudanças que a cidade sofreu, especialmente no final da década de 2010, altura em que, verdadeiramente de um momento para o outro, o Porto deixou de ser o lugar que conhecíamos.
As fortes mudanças que ocorreram continuam a dividir os portuenses até ao dia de hoje. O Porto nunca foi um lugar dado ao folclore, nem à estética Kitsch a que tantos sítios se convertem para agradar aos turistas. Esta é a cidade do Rock, de uma escola de arquitetura que nunca teve medo de inovar e berço do liberalismo! Como pode uma cidade assim modernizar-se para contentar os outros?
Contudo, no meu primeiro ano de estudos na FDUP, a minha perceção da cidade mudou. Desapareceu a rotina de correria entre casa, escola e atividades extracurriculares que me mantinha impedido de apreciar a cidade, e com isso tive mais tempo para a conhecer de um modo profundo.
Aqui em Cedofeita, um bairro onde os cafés para nómadas digitais coexistem com as mercearias de família que ainda se mantêm de pé, vi o Porto antigo e novo encontrarem-se. Presenciei um dos clichés de que todos falam: que é nos seus vários recantos escondidos que o Porto nos deslumbra. Descobri que, por muito que possa mudar, a magia ainda se esconde no nevoeiro matinal que se recusa a dissipar e no temperamento que até os mais corajosos assusta. Nada disto teria acontecido sem a FDUP, e muito mudou também durante o meu tempo aqui.
O medo da renovação é biológico: revela-se num perigo que reconhecemos de modo consciente e para o qual estamos sempre alertas. Mais insidiosa é a realidade da nostalgia, que nos converte em autênticos Narcisos, obcecados com uma imagem parada no tempo que já não existe, mas que fazemos tudo para preservar.
Muitos queixam-se que a cidade está a perder a sua identidade, quando foi precisamente pelo Porto insubmisso e sem artifícios que os turistas se apaixonaram. Afinal de contas, a transformação também há de ter sido estranha para quem por cá vivenciou o mítico primeiro concerto dos GNR na Igreja do Carvalhido, a edificação das várias obras modernistas espalhadas pela cidade — a que alguns chamaram “caixotes” — ou ainda para aqueles dos nossos antepassados que viram os revolucionários subir a Rua 31 de janeiro em marcha! A mudança não significa necessariamente mutação: o Porto continua vivo, quer seja na Casa Augusto ou na Casa da Música.
Começo o meu 4.º ano um pouco baralhado com tanto tempo que já passou. Abrir o coração à mudança parece ter sido a solução encontrada pelo Porto e, tendo crescido juntamente com esta cidade, vejo agora este fenómeno como um elemento necessário ao crescimento pessoal.
Os turistas depararam-se, por detrás dos seus austeros muros de pedra, com o coração esquecido do Porto. Espero que aqui possam encontrar a mesma magia nos dias mais cinzentos — que infelizmente, serão muitos — e que daqui saiam mais felizes, transformados pela experiência de habitar esta casa amarela, e, para alguns de vocês, ainda, esta linda cidade.
Manuel Faro
Diretor-adjunto


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