O Complexo

Atualizado: há 5 dias
Uma conversa curiosa é sempre aquela que se tem com o caloiro da UCP que também entrou na FDUP, muito pelas reações e conselhos que de imediato, quase como um reflexo involuntário, saltam daqueles que já passaram ou se encontram na nossa Faculdade. "Ah, não tem vida académica", "São muitos exames finais", "Está parada no tempo"...
Somos todos, em maior ou menor medida, culpados de tal reação, levantando-se a questão de saber qual a razão por detrás dessas ideias ou emoções tão fortes, tão naturais ao aluno da FDUP, e tão perpetuadas ao longo dos anos, que podemos falar de um verdadeiro "complexo de inferioridade".
Todos os anos saltitam pelos corredores as mesmas queixas sobre bonificações, mestrados, a falta de cadeiras opcionais, as presenças obrigatórias, ou mesmo o ensino demasiado teórico, comentários e angústias essas válidas e que deixam transparecer a atenção da comunidade estudantil a essas problemáticas. Nós, melhor do que ninguém, sabemos quais os problemas que nos afetam e como os resolver e queremos melhor, e essa é exatamente a primeira de três chaves para o realizar da Escola do Porto.
Perigoso é quando esse desagrado natural desliza no sentido de uma conformação geral. Resignamo-nos perante a falta de apoio, a falta de informação e comunicação, a falta de flexibilidade, a falta de uma verdadeira unidade. Sentimo-nos distantes daqueles que, conhecendo os problemas, os podem domar. E, a meu ver, essa é a segunda chave: uma direção que escuta e que procura sempre ser próxima dos estudantes, uma liderança que toma os problemas dos estudantes como seus.
Gosto de acreditar que já temos estas duas chaves.
Ora, o que é que nos falta então? Como no nosso mundo moderno em geral, falta-nos o diálogo. O estudante que não vê as suas necessidades satisfeitas ou pelo menos discutidas está destinado a manifestar o seu desagrado da melhor forma que sabe, junto de amigos, junto de outros estudantes, junto da sua família. Tendo em conta tratar-se de um fenómeno mais ou menos generalizado, podemos só imaginar como esteja a imagem da nossa Faculdade junto dessas pessoas.
A falta de resposta e a falta de visibilidade daquilo que está a ser feito no sentido dessa resposta leva cada um de nós a supor, esperemos nós erradamente, que nada está a ser feito, o que, por sua vez, contribui em grande medida para a percepção negativa que o estudante da FDUP tem da sua própria instituição - o tal, e peço desde já desculpa pela minha forma apocalíptica de o dizer, "complexo de inferioridade".
Um diálogo produtivo e, acima de tudo, transparente, mitigava muitas das preocupações estudantis, porque bem sabemos que todas as partes envolvidas só beneficiam desta troca de informação.
Assim, neste trigésimo aniversário do Jornal Tribuna, proponho a todos leitores que se façam ouvir à vossa maneira, que não tenham receio de se organizar, formal ou informalmente, de forma reconhecida ou não, em prol daquilo que acreditam poder mudar, que fomentem o diálogo. Depois de três décadas a dar corpo à liberdade de dizer, discutir, mas também ouvir, que este início de ano para o Tribuna seja também uma oportunidade de relembrar tais valores.
Neste ecossistema académico muitas vezes petrificado pela própria rapidez com que tudo tem de ser feito, que estudantes e direção se ouçam mutuamente e que trabalhem como aliados na missão educativa e profissional que anima a nossa Escola do Porto.
Rodrigo Alves
Diretor


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