Não te sentes capaz de entender o dia de ontem, baby?
- Vicente Correia

- há 2 dias
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“Las cosas que se mueren no se deben tocar”
~ Dulce María Loynaz (poetisa cubana)
Este é o verso inscrito na última página de “O Retorno”, de Dulce Maria Cardoso. Um verso evidentemente irónico, que traduz tudo o que Dulce rejeitou quando escreveu este livro. Ela tocou – ou melhor, escavou – o território pouco explorado da memória colonial: coisas que morreram, mas que não desapareceram. Não para fazer um ajuste de contas (por ela própria ter sido retornada), nem sequer para reproduzir o maniqueísmo simplista quando se fala sobre a colonização. Não. Escavou e apresentou-nos os desterrados, os restos do império recolhidos num hotel no Estoril, com vista para o mar. Para nos dizer, nas palavras de Rui: “eu estive aqui”.
“Agora somos retornados. Não sabemos bem o que é ser retornado, mas nós somos isso. Nós e todos os que estão a chegar de lá”. De lá, é de Angola, de onde Rui, um jovem de 15 anos, e a sua família partiram em meados de 1975, para regressar (no caso dos pais) e vir pela primeira vez (no caso do Rui e da irmã) à metrópole – ou seja, a Portugal. Na sequência do 25 de abril, que pôs termo à ditadura e acabou com a guerra colonial, os territórios das ex-colónias (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé) reclamaram a independência, levando milhares de portugueses a regressar ao país do qual tinham escapado para fugir à fome e à miséria. Dulce Maria Cardoso escreveu este “Retorno” na voz e na cabeça de um adolescente de quinze anos que se vê arrancado da vida que tinha e, de repente, a pisar um país que só conhecia pelos mapas na parede da escola e pelas histórias (mais ou menos míticas) que ouvia sobre a metrópole.
“Então a metrópole afinal é isto”. São estas as palavras do Rui quando chega a Portugal. O embate com a realidade, completamente diferente do que ele esperava. Afinal, passou quinze anos a ouvir dizer que na metrópole havia coisas que não havia em Angola. Quando quase tudo era pior, desde a miséria ao frio que gelava, comparado com o calor dos trópicos. E as cerejas grandes e luzidias que ele achava que as raparigas punham nas orelhas a fazer de brincos. Tudo isso não passava de mitos. Como é um mito acreditar que o regresso de meio milhão de pessoas foi fácil e pacífico. Não foi. O estigma associado à palavra “retornado”, a menina que é apalpada na estação de comboio com eles a dizer “as retornadas vêm todas furadas pelos pretos”; a sala de aula e a professora a ordenar “o retornado que responda”; ou, então, o típico comentário “andaram a explorar os pretos e agora vão-nos roubar os empregos”. Isto aconteceu. Hoje acontece. O alvo agora é outro.
Não te sentes capaz de entender
o dia de ontem, baby?
espera que ele seja o dia de amanhã.
(Alberto Pimenta in A sombra do frio na parede)
É sempre assim, a culpa tem que ser de alguém. A nossa revolta, a nossa dor, tem de ter um culpado. A pergunta “De quem é a culpa?” inaugura sempre a maldade. E nós estamos sempre a fazê-la. Ainda que, aqui, Dulce a tenha rejeitado. O que lhe interessa é falar destas pessoas e da perda que viveram. Dentro da História, estão contidas as centenas de histórias pessoais que merecem ser contadas. Porque, nestas, há qualquer coisa de universal: a dor da perda. Ainda que não tenhamos passado pelo que eles passaram, reconhecemo-nos neles, percebemos que também estamos representados ali. E quem são eles? Os que ficaram na berma da estrada, ou seja, na berma da História. E isso não está nos documentos oficiais, não está nas estatísticas – está na literatura, só pode ser encontrado na literatura.
A mãe é, para mim, das personagens mais marcantes deste livro, pela sua imensa fragilidade e clarividência. As crises que tinha (“quando a mãe usava os perfumes franceses, deixava de ser a D. Glória que tinha problemas e passava a ser a D. Glória que tinha os seus problemas, o que era completamente diferente de ter problemas, toda a gente tem os seus problemas, mesmo as vizinhas”), a esperança que, apesar de tudo, mantinha, e a certeza de que, na ocasião mais terrível, a única coisa que nos resta é continuar. Foi isso que o Rui e a família fizeram. Continuaram e inventaram a esperança.
Assumir a narração na primeira pessoa, na voz de um adolescente, não foi um mero acaso. Dulce sabia o que estava a fazer. A adolescência é um período de perda, de redefinição e do começo de qualquer coisa nova, da afirmação de uma identidade. Não foi essa a experiência dos retornados? E o país, nessa altura, não estava ele próprio a viver uma adolescência? A dada altura, Rui diz que no hotel “estavam os retornados de todos os cantos do império, o império estava ali, naquela sala, um império cansado, a precisar de casa e de comida, um império derrotado e humilhado, um império de que ninguém queria saber”. Sejamos claros, o império tinha que acabar, sustentava-se através de uma lógica racista e profundamente desigual, que beneficiava sobretudo os brancos, os de cá e os de lá. Mas o fim de um império de cinco séculos não termina incólume, não termina sem vencidos. Rui e a sua família foram uns desses desterrados de que nós não quisemos saber.
Estas são as coisas mortas que dizem que não se deve tocar, e que Dulce teve a coragem de contar. E de escavar, acima de tudo, a perda afetiva que esta gente viveu. Para perceber o presente, precisamos de conhecer o passado. Precisamos de tocar no passado e não fingir que ele não aconteceu. E, mesmo que não queiramos enfrentá-lo, ele persegue-nos. Não se apaga o passado como quem apaga os riscos do lápis num caderno.
E tu, não te sentes capaz de entender o dia de hoje? Os imigrantes torturados em Odemira, no Alentejo. E tu, não te sentes capaz de entender o dia de ontem? A professora a ordenar “o retornado que responda”. Afinal, isto não mudou assim tanto, baby.
Vicente Correia
Departamento Cultural

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