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O AMOR PELA CIDADE

Foto do escritor: Hugo NovoHugo Novo

Desportivamente falando, o amor pela nossa cidade manifesta-se através do apoio incondicional ao clube local (ou aos clubes, caso as instituições variem consoante a modalidade). À primeira vista, pode parecer paradoxal manifestar esta ligação pelo  clube da minha terra, depois de, no meu último artigo, ter escrito sobre o clube que sempre defendi e que continuarei a defender, o F.C. Porto. Todavia, apesar de vivermos num país onde parece que só existem três emblemas, há três anos e meio descobri a emoção única que é apoiar o clube que verdadeiramente nos representa: o clube da nossa terra. Sempre ouvi dizer que, ao longo da vida, podíamos trocar tudo e mais alguma coisa, mas nunca o nosso clube. Jamais seria capaz de abandonar o Porto enquanto adepto. Mais, confesso que, se no mais trágico universo paralelo possível, o Porto se extinguisse, perderia por completo o interesse pelo desporto. Contudo, o meu fanatismo pelos azuis e brancos não me impediu de descobrir, espontaneamente, a magia de ser adepto do “clube da terrinha”.


     No decorrer da época de 2021/2022, o Vianense, clube de Viana do Castelo, cidade de onde sou natural, disputou a primeira eliminatória da Taça de Portugal diante do Âncora Praia. Mesmo residindo nas proximidades do mítico Estádio Dr. José de Matos, até então só o tinha visitado duas vezes. Nessa partida,  o Vianense venceu por 2-1, qualificando-se para a ronda seguinte, ronda essa que traria a Viana do Castelo  um histórico do futebol português, o Vitória F.C. A oportunidade de ver um encontro entre históricos do nosso futebol levou-me a ir ao estádio do “velhinho”, à semelhança do que aconteceu na primeira eliminatória. 


Após a eliminação na Taça de Portugal, e visto não ser um espectador assíduo, não contava regressar ao estádio tão cedo. No entanto, num dia sem planos, decidi lá voltar para assistir a um jogo do Campeonato de Portugal. Apesar da derrota por 1-2 diante do Vilaverdense, a emoção do jogo e a atitude provocatória de um jogador adversário despertaram em mim um sentimento de bairrismo e de necessidade de defesa da minha cidade que me levou a ser, realmente, um adepto do clube da minha cidade. Desde então, ao longo de três anos e meio, falhei apenas um jogo realizado  em casa, tendo já percorrido centenas de quilómetros para apoiar o também “meu” Vianense.


     Descrever este sentimento de amor ao clube da cidade em palavras não é fácil. Posso dizer que ser adepto de um clube cujas vitórias são menos frequentes e, consequentemente, mais preciosas, é uma verdadeira montanha-russa de emoções. Lembro-me, como se fosse ontem, da felicidade que transbordava por toda a cidade aquando da subida para a Liga 3 em Amarante, felicidade essa que voltou a contagiar toda a cidade quando disputamos a final de um campeonato no Jamor. Recordo-me, igualmente, da satisfação e da adrenalina de vencer os dérbis do Alto-Minho contra o Limianos, afirmando a hegemonia da nossa cidade no distrito. Por outro lado, não me esqueço  da desilusão que foi a descida ao Campeonato de Portugal, materializada na derrota ocorrida no último jogo em casa, contra o Anadia, nem  das eliminações precoces na Taça de Portugal. Nestes momentos, todas as emoções já vivenciadas  enquanto adepto do Porto invadiram o meu estado de espírito com uma intensidade redobrada. 


Apoiar o clube da “terrinha” transcende aquilo que é a mera vitória de uma equipa; representa, mais do que isso, a vitória  da cidade que nos viu nascer, das pessoas com quem convivemos diariamente. Cada vitória é, verdadeiramente, uma vitória nossa, e não há nada mais bonito e gratificante do que ver o nome do nosso “lugar” no topo. 


Além destes momentos vividos com o Vianense, destaco ainda o retorno à primeira divisão da Juventude de Viana, na modalidade de  hóquei em patins. Para esta paixão, é irrelevante o facto de as instituições desportivas serem diferentes, o que conta é apenas a localidade defendida pelas mesmas.

   

 Contrariamente ao que muitos possam pensar, defender o emblema de onde somos naturais não é uma exceção – pelo contrário, nos outros países costuma ser a regra.

   

 À semelhança do que fiz no meu primeiro artigo, em primeiro lugar, irei utilizar o futebol neerlandês como exemplo. O futebol neerlandês, no que concerne ao nível de grandeza dos clubes , tem uma estrutura semelhante à nossa: destacam-se  três grandes clubes (Ajax, PSV e Feyenoord), algumas equipas de segunda linha, equiparáveis ao S.C. Braga ou ao Vitória S.C., e o restante das equipas encontra-se num nível mais ou menos equilibrado. Contudo, a grande diferença reside no facto de que, enquanto em Portugal uma equipa como o Santa Clara, que está a fazer o melhor campeonato da sua história e a lutar por uma vaga nas competições europeias, consegue apenas encher, em média, um quarto da capacidade seu estádio (note-se que esta média aumentou substancialmente com a receção dos açorianos ao Porto e ao Benfica), o Fortuna Sittard, clube neerlandês de estatuto semelhante ao clube português referido , que se encontra na parte inferior da tabela de classificação e com um estádio cuja capacidade difere apenas em 300 lugares, , apresenta uma ocupação média de cerca de 80%. Importa sublinhar que esta é a pior percentagem da Eredivisie que, ainda assim, supera a de qualquer clube português, à exceção dos três grandes.

    

 O contraste torna-se ainda mais gritante quando utilizamos o futebol alemão como termo de comparação. Todos os clubes da segunda divisão alemã têm uma média de espetadores superior à dos “não-grandes” de Portugal. Já na primeira divisão, desde o início da época até ao final de 2024, apenas três clubes tiveram uma taxa de ocupação inferior a 95%, de acordo com a página B24. 

   

 Como podemos verificar através destes exemplos, Portugal é um dos poucos países onde os clubes locais são, frequentemente, abandonados, esquecidos e preteridos por clubes que ficam, em muitos casos, situados  a centenas de quilómetros de distância das residências dos seus adeptos. Tal como acontece com a descentralização dos direitos televisivos, este fator também contribui para a falta de competitividade da nossa liga e para o enfraquecimento da mesma, deixando-a dependente dos “três do costume”. Não quero, com esta afirmação, adotar um discurso hipócrita: assumo que também faço parte do maior problema estrutural do futebol português. Todavia, creio que uma mudança de mentalidade, que lentamente  parece estar a começar a acontecer, seria benéfica para nós, permitindo atenuar décadas de atraso do nosso futebol face aos melhores da Europa.

    

Antes de terminar este artigo, quero ainda “apontar o dedo” à comunicação social por perpetuar esta ideia de que só existem três clubes, concedendo-lhes um destaque único e exclusivo, através de programas desportivos onde só se dá voz a adeptos de Porto, Sporting e Benfica, bem como através da prevalência de notícias irrelevantes sobre estas três instituições, em detrimento de notícias relevantes acerca dos menos poderosos. Um exemplo recente desta negligência foi a ausência de destaque dada  à qualificação do Tirsense para as meias-finais da Taça de Portugal, um feito inédito de uma equipa do quarto escalão do nosso futebol. Em vez de destacarem a festa da taça, que decorreu no distrito de Portalegre, numa “casa” muito bem composta, preferiram realçar  um jogo ainda por disputar , ou a hipotética renovação de contrato de um jogador do Sporting. Além disso, desrespeitaram o percurso de uma equipa que chegou aos quatro melhores da prova, apelidando a formação de Santo Tirso como um “aperitivo” para o vencedor do confronto dos quartos de final entre o Benfica e o Braga, menosprezando uma instituição histórica que já militou entre os maiores de Portugal. Considero de muito mau tom a postura adotada pelos órgãos de comunicação social perante os clubes ditos “pequenos”, principalmente tratando-se de um meio que deveria dar o exemplo, promovendo o desporto em toda a sua diversidade. 

    

Concluo este artigo apelando aos leitores para que experimentem a emoção e a beleza de apoiar os clubes das suas respetivas localidades, não só para promover o desenvolvimento dos mesmos e do futebol português, mas também para sentirem que não são “apenas mais um” na bancada e para sentirem o orgulho que é ver a vossa localidade a ser bem representada no desporto, assim como eu sinto quando vou ver o “meu” Vianense representar a minha cidade.


                                                                                                 Hugo Novo

                                                                                    Departamento Desporto


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