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O esporte nunca foi neutro 

  • Luís Alves
  • 10 de mar.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 11 de mar.

Durante décadas, dirigentes esportivos insistiram que o esporte deve ser um espaço neutro, separado da política. A ideia preconiza que estádios e quadras sejam territórios de pura competição física, onde nem governos nem atletas devem misturar suas convicções individuais com o espetáculo esportivo. Mas essa noção, além de ingênua, já não se sustenta diante da realidade contemporânea: o esporte sempre refletiu — e muitas vezes amplificou — debates sociais e políticos importantes.


Hoje, mais do que nunca, vemos claramente isso: atletas deixam de ser meros executores de habilidades técnicas para assumir papéis públicos e influentes em temas que vão muito além da bola, da rede ou do apito.


Um dos exemplos mais emblemáticos é o de Mohamed Salah, ponta-direita do Liverpool e um dos jogadores de futebol mais conhecidos do mundo. Salah, nascido no Egito e devoto muçulmano, enfrentou críticas nas redes sociais simplesmente por compartilhar uma celebração familiar do Natal — um gesto pessoal que foi interpretado por muitos como uma declaração cultural ou religiosa.


Mais importante ainda, o atleta se posicionou publicamente em questões humanitárias e políticas ligadas ao conflito Israel-Palestina. Salah criticou a UEFA por uma homenagem considerada superficial a um jogador palestiniano morto devido à violência na Faixa de Gaza, questionando as autoridades sobre o “porquê” de não explicaram como e porque tinha morrido. Esse tipo de intervenção — longe de ser sobre “futebol puro” — coloca Salah no centro de debates geopolíticos difíceis, mostrando que atletas globais não podem limitar-se ao refúgio numa suposta neutralidade. É evidente que a postura de figuras como Salah pode gerar controvérsia e até reações contrárias de outras vozes esportivas e da mídia — porque a sua visibilidade transforma gestos pessoais em símbolos com impacto público. Mas isso também lembra que os esportistas, por sua posição social e influência cultural, não estão desvinculados da sociedade em que vivem.


O argumento de que o esporte deve permanecer apolítico costuma ser usado para desestimular manifestações sobre temas sensíveis: racismo, direitos civis, imigração, desigualdade ou guerra. Mas a verdade é que o silêncio também é uma forma de posicionamento. Quando ligas, clubes ou competições desestimulam vozes críticas, isso reflete, muitas vezes, interesses corporativos e políticos maiores — e não a proteção de um “espaço neutro”.


Em outros contextos esportivos, atletas têm protestado contra políticas de imigração ou contra a violência policial, levando discursos sociais para dentro dos ginásios e estádios,  transformando o esporte em um espaço de contestação e visibilidade.


A ideia de que o esporte deve ser separado da política não é uma construção recente — era muitas vezes usada para evitar debates incômodos ou para preservar interesses econômicos de grandes corporações e dirigentes. Mas o que vemos no século XXI é justamente o oposto: o esporte tornou-se um palco inevitável para disputas sociais, culturais e ideológicas.


Quando atletas expressam as suas posições, eles não estão apenas opinando; estão usando sua visibilidade para dar voz a grupos que muitas vezes são marginalizados. Isso expõe uma verdade desconfortável:


O esporte nunca foi neutro — porque quem diz que ele deve ser neutro muitas vezes deseja apenas que certas vozes não interfiram no lucro, na imagem ou nas narrativas dominantes.


Quando um atleta fala, não é o esporte que se politiza — é a sociedade que se revela dentro dele. 


Se o esporte move multidões, também move consciências.


Luís Alves

Departamento Desporto


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