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O Muro que falta derrubar?

  • Foto do escritor: António Pinho
    António Pinho
  • 8 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

Um dérbi é muito mais do que “um encontro desportivo entre equipas vizinhas ou rivais”, à luz da sua definição formulada pelo Priberam - é um confronto entre comunidades, formas de estar em sociedade, transcendendo, largamente, a mera competição desportiva entre os seus envolvidos. Um pouco por todo o globo, de maior ou menor dimensões, podemos identificar inúmeros intervinientes que preenchem estes “requisitos”, desde logo nas principais capitais europeias; começando por Lisboa, com o dérbi da Segunda Circular entre Sporting e Benfica, indo até Madrid, que opõe as equipas do Atlético e do Real, ou até Londres, com os embates entre Chelsea, Arsenal e Tottenham, deslocando-nos, finalmente, a Itália, por exemplo, com o duelo entre a Roma e a Lazio.


No entanto, há alguns países que escapam a esta conjuntura. É o caso da Alemanha, onde a capital, a cidade de Berlim, apesar da sua relevância histórica, não dispõe de um dérbi futebolístico que possa ombrear com os mencionados acima. Para além disso, a capital alemã esteve em destaque por outro motivo: no passado dia 9 de novembro comemoraram-se trinta e seis anos da queda do Muro de Berlim.


A história futebolística da capital alemã é indissociável da evolução da cidade como um todo ao longo dos últimos dois séculos. Berlim foi marcada por divisões sociais e políticas profundas: assolada pela repressão do Terceiro Reich, sofreu a devastação da Segunda Guerra Mundial e, mais tarde, tornou-se um dos epicentros da Guerra Fria. A sua divisão entre os blocos ocidental e oriental, materializada no Muro de Berlim, deixou marcas bem visíveis ainda nos dias de hoje. 


Deste cenário que apresento poderemos retirar duas conclusões: se, por um lado, este clima de fragmentação e divisão, não só física mas estendendo-se, igualmente, a todos os domínios da sociedade, terá contribuído para uma dificuldade acrescida em criar riqueza e fomentar um cenário económico de prosperidade e desenvolvimento em relação a outras cidades que detêm um maior poderio económico, financeiro e industrial (como Frankfurt, Colónia, Estugarda, Munique ou Hamburgo), por outro lado, identificamos, através dos seus clubes, um meio de expressão e afirmação das múltiplas comunidades (e da própria diversidade e multicultarildade) que aí residem e que foram, ao longo dos tempos, sendo alvo de repressão e outros tipos de discriminação. 


Nesse sentido, encontramos diversos clubes, que, ainda que pouco conhecidos e empobrecidos de um historial de grande sucesso desportivo, possuem uma grande importância para as suas comunidades, desde logo pelo que diz respeito à sua proveniência de ordem religiosa ou étnica, como o Türkiyemspor Berlin (alusivo à comunidade imigrante de turcos) e o Makkabi Berlin (afeto à comunidade judaica), mas também pela sua orientação ou simpatia por certas ideologias políticas, como o Dynamo Berlin (antigo clube oficial da Stasi, polícia política e os serviços secretos da RDA, sob a figura do seu dirigente-máximo, Erich Mielke) e o Union Berlin (um clube “anti-sistema” dentro do regime da RDA, detendo, ainda hoje, uma gestão dos serviços do clube muito própria pelos seus membros). Não nos podemos esquecer, claro, do maior clube da capital: o Hertha Berlin, que conta com uma grande massa associativa e é também o mais bem-sucedido em termos de presenças nas competições europeias e na principal liga do futebol nacional. 


De uma forma geral, retomando o tópico da rivalidade entre diferentes clubes da mesma cidade, na capital alemã, verifica-se um cenário um pouco peculiar: podemos constatar um espírito de amizade e convivência e uma rivalidade saudável entre os diversos clubes de Berlim, devido, em parte, à memória de um passado tumultuoso e do que todos tiveram de superar para se poderem afirmar. Esta própria diversidade e dinamismo cultural fazem jus à expressão “arm, aber sexy” (“pobre, mas sexy”), que caracteriza a cidade e a tornam tão distintiva. 


Entre os dois clubes de maior expressão da cidade, o Hertha e o Union, prevaleceu sempre uma relação de amizade, que caracterizava o relacionamento entre os dois grupos de adeptos afetos aos respetivos clubes - slogans inscritos em autocolantes e cartazes como “Hertha und Union - eine Nation” ou “Es gibt nur zwei Meister an Spree: Union und Hertha BSC” (traduzindo para “Hertha e Union - uma Nação” e “Só há dois campeões no Spree: Union e o Hertha BSC”) simbolizavam esta união e o sentido de comunidade entre ambos. 


Como referi anteriormente, o Union situava-se na zona de Köpenick, na parte oriental da cidade, num meio de classe operária, sob o domínio da RDA, e o Hertha na parte ocidental, na RFA. O bom relacionamento e a proximidade vivido entre estes clubes começou a ser visto negativamente pelas autoridades políticas da Alemanha de Leste, pela rivalidade institucional que travavam com os vizinhos do Ocidente. Face ao desempenho desportivo medíocre da equipa do Union, Erich Mielke, o chefe da polícia política da RDA decide criar um clube na cidade que pudesse rivalizar com o Union e, com isso, arrecadar um maior prestígio para a capital; deu-se, então, a fundação do Berliner FC Dynamo (ou Dynamo Berlim, mais comumente), em 1966, com o líder político responsável por supervisionar a atividade profissional do clube. Assim, o Union é forçado a ceder alguns dos seus jogadores ao clube recém-formado, fortalecendo, no seio dos seus adeptos, a crescente tendência de clube anti-sistema em que se estava a tornar, atraindo diversos grupos como Skinheads, Punks e outro tipo de culturas dissidentes, que viam, no apoio ao clube, de certa forma, um ato de rebeldia e irreverência, característicos da sua própria personalidade e da sua forma de estar em sociedade: daqui nasce a expressão, proferida pela revista satírica Eulenspiegel, “nem todo o adepto do Union é inimigo do Estado mas todo o inimigo do Estado é adepto do Union”. 


O Union foi resistindo e sobrevivendo como pôde, tendo vindo a adquirir, ao longo dos anos, a categoria de um “clube de culto” pela forma como gere a sua atividade e pela relação que nutre com os adeptos, mantendo uma proximidade e afinidade com os seus membros, eles próprios proprietários do mesmo e responsáveis pelas decisões diretivas. Em 2004, por exemplo, estando em vias de fechar atividade pela falta de fundos, os adeptos juntaram-se e organizaram uma campanha de doação de sangue - “Bleed for Union”- cedendo o valor que angariaram (na Alemanha, é pago um valor à pessoa que doa sangue) ao clube, contribuindo para a sua sobrevivência nessa época desportiva.


Para além disso, em 2008, face à deterioração das condições do seu estádio (o Stadion an der Alten Försterei, que deve o seu nome por se localizar, literalmente, no meio de uma floresta), e à falta de manutenção do mesmo, que poderiam resultar no seu encerramento pelo incumprimento das condições exigidas pela Liga, os adeptos voltaram a mobilizar-se, protagonizando mais um momento notável de amor ao clube: puseram “mãos à obra” e procederam à remodelação do estádio, contribuindo, novamente, de forma crucial para a sua continuidade. Contabilizaram-se mais de 2500 voluntários e cerca de 140.000 horas de trabalho, tudo por amor ao seu clube! Diga-se, por curiosidade, que é um estádio com 22.000 lugares, em que apenas 3000 correspondem a lugares sentados, um dos poucos casos no futebol alemão, no que diz respeito a este tipo de infraestruturas.


No lado oposto da cidade, o Hertha e os seus adeptos tiveram a sorte de usufruírem de um percurso relativamente menos atribulado ao longo dos anos, refletindo-se, desse modo, a afirmação, se quisermos, como um clube mais neutral, relativamente a posições político-ideológicas. Insere-se num ambiente mais luxuoso e confortável, no imponente Olympiastadion, localizado na zona de Charlottenburg, também um pouco afastado do centro da cidade, como os seus vizinhos. Muitos adeptos têm-se insurgido contra a permanência do clube num estádio demasiado grande (capacidade para 75.000 lugares), argumentando que, ainda que consigam atingir assistências entre 45.000 e 50.000 pessoas, a própria arquitetura do recinto não favorece um clima mais fervoroso e harmonioso entre os seus diferentes setores. 


Aquando da queda do Muro de Berlim, em 1989, fortaleceu-se o companheirismo e a união vivida entre os dois clubes, pela celebração da conquista da liberdade e da reunificação da Alemanha e da cidade de Berlim. No entanto, como qualquer confronto desportivo, começa-se a assistir à ascensão de um sentimento de rivalidade e divisão junto das camadas mais jovens, nomeadamente, aquelas que haviam nascido depois da reunificação. Enquanto que, entre os adeptos mais experientes, cansados de divisões entre os seus conterrâneos, se defende a ideia de uma rivalidade desportiva saudável, mantendo o companheirismo entre os aficionados de ambos os clubes, por outro lado, os mais jovens, irreverentes e destemidos, têm vindo a contribuir para um clima de maior animosidade entre ambos os clubes.


Outro episódio que contribuiu para este clima de tensão teve lugar na época de 2019/20: o Hertha propôs ao Union realizarem o jogo que colocaria frente-a-frente as suas equipas no campeonato no dia 9 de novembro de 2019, dia em que se comemoraram os 30 anos da queda do Muro de Berlim, como uma forma de celebrar a reunificação da cidade e da relação entre os seus clubes. O presidente do Union recusou categoricamente o seu pedido, descrevendo o encontro como “um conflito de classes”, que não deveria ter um significado maior do que a “rivalidade desportiva” de um dérbi. As suas declarações foram apoiadas por grande parte dos adeptos do Union, embora alguns as tenham apontado como uma “desconsideração” pelas vítimas do regime da RDA e até como um desrespeito para com o passado e a história do próprio clube, que tinha também sido alvo de repressão e outro tipo de violações à sua integridade como associação desportiva por este regime, bem como para com os seus adeptos.


Atualmente, e contrariando aquilo que tem sido grande parte da tendência das últimas décadas, o Union tem vindo a superiorizar-se perante os seus rivais, encontrando-se, na presente temporada, a meio da tabela, na 12ª posição, na principal divisão competitiva, a Bundesliga. Por sua vez, o Hertha procura regressar a esta competição, depois de ter sido despromovido em 2023, após 9 épocas no principal escalão do futebol nacional, ocupando, neste momento, o 7º lugar na Bundesliga 2. 


Deste modo, podemos concluir que a rivalidade entre os dois clubes veio para ficar, identificando-se duas posições: uma mais amigável e de rivalidade saudável, remontando à mentalidade abraçada, sobretudo, por um grupo de adeptos de ambos os clubes mais experiente, e, por outro lado, uma posição mais irreverente e frenética, uma geração que pretende fazer desta uma rivalidade que ombre com as que fizemos referência no início da exposição, conferindo-lhe, assim, o estatuto de um verdadeiro dérbi. E que, mais do que futebol, esta seja também um confronto de Leste contra o Ocidente, reflexo de um sentimento que permanece ainda na sociedade alemã, que se pode designar por “Die Mauer im Kopf” (“O Muro na mente/cabeça”), estendendo-se a todos os domínios da sociedade e a que o futebol não escapa, certamente!


António Pinho

Departamento Desporto


 
 
 

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