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O orçamento entra na tasca

  • Foto do escritor: Diogo Lamego
    Diogo Lamego
  • 1 de nov. de 2024
  • 3 min de leitura

O orçamento entra na tasca e perguntam-lhe: A quantos já te deste?


Esta época do ano é marcada pelo período das negociações orçamentais, com os partidos sentados à mesa e os seus respetivos líderes a sorrirem e a apertarem as mãos. Este aperto de mão é visto pelos sábios comentadores como “negociações” ou “aproximações de entendimento”, e pelos sabidos tasqueiros, num dia de boa fortuna, como “aquilo é para inglês ver”, ou, num dia em que reparem que o IRS Jovem não é para os seus filhos, “eu quero é que o orçamento se fod#”.


O PSD, na sua posição de partido governante minoritário, espreita os seus vizinhos para as negociações orçamentais. O rés do chão esquerdo já revelou, por uma questão de princípios, que nada queria em relação a este orçamento. Contudo, o primeiro esquerdo confidenciou que não pagaria um fino ao primeiro direito – vejamos se nada muda à última da hora. Já os do segundo direito, que são dois simpáticos irmãos, estão divididos – um inclina-se a não ir jantar com o primeiro direito, o outro prostra-se nos braços deste, implorando por uma última rodada. Uma nota de rodapé: os do rés do chão esquerdo já ouviram os irmãos do segundo direito a dizerem “liberal até dizer chega”. Confusos, porém, não ligaram.


O PS apresentava-se, há uns dias, disponível para a negociação, e o seu líder, Pedro Nuno Santos, admitiu até que encontrava alguns pontos de convergência entre ambos os partidos. Contudo, determinados pontos necessitavam de ser objeto de entendimento. Chegados ao dia de hoje, Pedro Nuno Santos afirma a oposição do seu partido ao orçamento, e apela aos militantes para que o PS fale uma única voz. 


Eu, como fiel convidado deste prédio, não sinto diferença entre os jantares animados do primeiro andar, sejam eles da fração esquerda ou direita. É igual. Quando vão à tasca, pedir o seu pequeno-almoço, um pede um galão, o outro uma meia de leite. Contudo, ambas são café e leite.  


E chegamos aos inquilinos do segundo andar. Os irmãos do segundo direito. Um, tal como referido, não concordará em ir para os copos com o primeiro direito. Tem vindo a dizer que ele anda a encher muito bagaço no copo, e, por vezes, a bebida, para saber melhor, tem de ser tomada em copos mais vazios, ou, como será dito pelos sábios comentadores, “talvez seja preciso menos Estado”. Já o outro irmão, deita-se nos braços do seu vizinho, à espera de que este diga “eu pago a primeira rodada, o resto é pela tua conta”. Ele quer tanto ouvir “nós corremos com os ciganos da tasca”.


Agora, num tom mais sério, o CHEGA aprovará este orçamento, no caso do PS não o aprovar. Mas, porquê? Não é o CHEGA anti-sistema? Não! O projeto fascizante do CHEGA foi criado com o intuito de descredibilizar o projeto político da esquerda e alcatroar o caminho para o governo de direita. Os seus ricos financiadores (ou financiadores ricos) nunca permitiriam que servisse de pedra na engrenagem de um governo de centro-direita.

Quanto ao Partido Socialista, a sua abstenção deu ao CHEGA aquilo que ele queria - não aprovar o orçamento e dar a ilusão de intensa oposição ao programa do governo. Tal como disse no parágrafo anterior, o CHEGA ajudaria o PSD, caso o PS não ajudasse.

 

Oh, esqueci-me dos vizinhos do sótão…. Eles não vão à tasca. Normalmente, usam esse tempo para passear o cão – passeiam-no quando estão. Como gostam tanto da Europa, passam a maior parte do ano preocupados com os seus amigos em Bruxelas.


Diogo Lamego

Departamento Crónicas

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