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O valor por detrás dos números

  • Foto do escritor: António Pinho
    António Pinho
  • há 4 dias
  • 8 min de leitura

A problemática da otimização de recursos ocupa um lugar central nas sociedades modernas, dentro do caminho a ser traçado no plano da sustentabilidade e da inovação, com uma aplicação transversal nos mais diversos setores institucionais: todos os intervenientes lidam com recursos, por definição, escassos, procurando maximizar os resultados obtidos. 


Seja no campo das decisões e disputas políticas, nos grandes investimentos e negócios do comércio internacional ou no desporto, todos procuram “com pouco, fazer muito”, dentro da conjuntura acima referida. Estes contornos assumem especial importância para grupos ou entidades de menor dimensão, que se vêm “forçados” a adotar novas estratégias na estruturação da sua atividade e a enveredar por vias inovadoras que frequentemente constituem uma ruptura perante o status quo


No desporto, são cada vez mais os clubes e associações que recorrem à análise de dados estatísticos e fórmulas matemáticas para estruturar os seus plantéis e valorizar os seus ativos. A este respeito, como ponto de partida para a exploração do tema, seria pertinente mencionar o trabalho desenvolvido na década de 1970 por Bill James, economista norte-americano. Aliando a sua área de formação à paixão pelo basebol, George William James, mais conhecido por Bill James, publicou inúmeros artigos onde se debruçou aprofundadamente sobre o lado estratégico do jogo, produzindo, com base em dados estatísticos, uma crítica fundamentada sobre os diferentes momentos e movimentos realizados numa partida. Procurava, ao refletir sobre estes tópicos, trazer para a discussão um lado mais racional e objetivo analiticamente, que contrastava com uma vertente mais emocional e espontânea presente no trabalho da grande maioria dos jornalistas desportivos da altura. 


A cultura desportiva e as mentalidades que prevaleciam na indústria do basebol até então serviram como um entrave ao acolhimento das suas observações e teorias: questionavam, os críticos e principais analistas da modalidade, a validade prática e efetividade dos seus pressupostos, pelo que viria a obter um reconhecimento sensivelmente diminuto nos anos que se seguiram. No entanto, no início deste século, os seus destinos viriam a alterar-se radicalmente: apesar de ter prosseguido com as suas investigações e reflexões, divulgadas pelo “The Bill James Baseball Abstracts”, publicado, pela primeira vez, no ano de 1977, tendo sido alvo de diversas modificações e desenvolvimentos subsequentes, foi apenas no ano de 2002 que verificamos o primeiro caso de relativo sucesso da aplicação dos seus princípios. Na sequência de não conseguir competir com as grandes equipas da Major League Baseball, que dispunham de orçamentos e quantias muito mais avultadas para investir nos seus plantéis, o então diretor técnico dos Oakland Athletics, Billy Beane, decide proceder a uma mudança radical no que respeita ao funcionamento interno do clube e à política de contratações, que vinham a seguir até aí.


Com um orçamento significativamente inferior à grande maioria dos seus adversários, Billy Beane conseguiu reunir um conjunto de jogadores que pudessem competir de “igual para igual” contra equipas de maior dimensão e com outros recursos financeiros, nomeadamente, os Boston Red Sox e os New York Yankees, cujos orçamentos rondavam os 130 milhões de dólares, números substancialmente superiores aos despendidos pelo conjunto de Oakland, que se situavam nos 44 milhões de dólares. Esta jornada, detalhada por Michael Lewis na obra “Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game”, e adaptada para cinema, com o filme “Moneyball” (apresentando Brad Pitt como protagonista), viria a atingir grande notoriedade e a conferir uma visibilidade global aos feitos da equipa de Billy Beane.


O conceito “Moneyball” estabelece-se a partir de uma premissa de base que procura confrontar o conhecimento e os métodos utilizados pelos demais intervenientes da indústria do basebol (jogadores, treinadores, dirigentes e olheiros), que ficam dependentes de um sucesso subjetivo, assente em conceitos e percepções, muitas vezes imprecisas ou com uma credibilidade questionável na sua sustentabilidade a longo prazo. Um outro elemento relevante que podemos associar a este modelo consiste na capacidade de identificar jogadores sub-valorizados pelo mercado, cujos valores que auferem não corresponderem, verdadeira e objetivamente, ao contributo que oferecem para o desempenho desportivo. 


Para além do basebol, também no futebol diversos clubes e agentes têm procurado adotar novas estratégias para alcançar melhores resultados desportivos e financeiros, de forma inovadora e sustentável. Um dos casos mais paradigmáticos é o do Brentford, em Inglaterra. Ainda que seja um clube tradicional, atravessou diversas dificuldades financeiras, carecendo de uma gestão produtiva e bem-estruturada, às quais se associa um desempenho desportivo relativamente medíocre e sem grandes perspectivas de futuro. No entanto, em 2012, deu-se uma mudança drástica nos destinos do clube: Matthew Benham, um empresário local e adepto de longa data do Brentford, assumiu a liderança dos Bees (alcunha do clube). Com um passado na indústria financeira e no mundo das apostas, no desenvolvimento de modelos estatísticos onde acumulou uma elevada fortuna, projetando um sistema de operações e de gestão da atividade do clube baseada no modelo Moneyball, um pouco à semelhança do que havia feito Billy Beane. 


Progressivamente, o recém proprietário vai dotando o clube com novos recursos, procurando implementar um sistema de recrutamento de novos jogadores, que tem como base a observação exaustiva e a aplicação de dados estatísticos como critério para a escolha dos mesmos. Visando, naturalmente, rentabilizar ao máximo os seus ativos, e, desse modo, prosseguir a sustentabilidade financeira e desportiva do clube, registam-se algumas contratações notáveis nos anos que se seguiram, que traduziram um percurso “ótimo”, se assim se possa apelidar, de um clube em expansão e com recursos escassos: recrutar a baixos custos, providenciar retorno desportivo e, por último, conseguir um encaixe financeiro pela venda dos seus direitos a outros clubes, gerando um aumento nas receitas geradas para o clube. 


A título de exemplo, pode enunciar-se diversos jogadores que cumpriram estas etapas: Ollie Watkins (adquirido por 7.2 milhões e vendido por 34 milhões), Andre Gray (comprado por 620 mil e vendido por 12.4 milhões), Neal Maupay (adquirido por 2 milhões e transferido por 22.2 milhões) e, ainda, entre outros, Said Benrahma (comprado por 3 milhões e vendido por 30 milhões). Em 2014, o clube é promovido ao Championship e em 2021 regressa à Premier League, o principal escalão do futebol inglês, depois de uma ausência de mais de 75 anos desse patamar competitivo (desde 1947). 


Da indústria financeira e da consultoria de apostas desportivas, surge outra figura que veio a protagonizar mais um caso de sucesso: o empresário inglês Tony Bloom. Dentro de um contexto semelhante ao do Brentford, o Brighton & Hove Albion, clube do sul de Inglaterra, deparava-se com problemas idênticos, de natureza financeira e estrutural. Em 2009, Bloom, adepto de longa data do clube, procede à aquisição de 75% das ações, tornando-se o acionista maioritário, assumindo, deste modo, as rédeas do clube. 


Com um investimento de cerca de 70 milhões de libras, implementou um conjunto de alterações no funcionamento das operações do clube e na política de contratações de jogadores. Ao nível de infraestruturas, destaca-se o estádio inaugurado no final da época de 2010-2011, o Falmer Stadium (também designado “The Amex” - American Express Stadium, por razões comerciais), com uma capacidade para mais de 30 mil espectadores. Em 2017, o clube atinge a subida à Premier League, e, em 2023, qualifica-se para as competições europeias pela primeira vez na sua história. Nessa época, atinge a melhor classificação de sempre no primeiro escalão, com um 6º lugar, assegurando um lugar na fase de grupos da Liga Europa da época desportiva seguinte.


No que diz respeito a novas contratações, destacam-se, entre outros, Moisés Caicedo (comprado por cerca de 4.5 milhões e transferido por 115 milhões para o Chelsea); Marc Cucurella (adquirido por 15 milhões e vendido por 60 milhões ao Chelsea) e Alexis Mac Allister (comprado por 7 milhões e vendido por 35 milhões ao Liverpool).


Para além do sucesso em Inglaterra, Tony Bloom acrescenta ainda ao seu currículo uma aventura pela Bélgica, no Union St. Gilloise. Num panorama desportivo dominado, em grande parte, hegemonicamente, pelos rivais da capital Bruxelas, Anderlecht, e, mais recentemente, pelo Club Brugge, o Union tem vindo a cimentar a sua posição entre os grandes, a nível interno. Sob a influência do novo proprietário britânico, que adquiriu uma grande parte dos direitos do clube, em 2018, ano em que se encontravam em vias de serem despromovidos à 3ª divisão, o Union regressa ao principal escalão 3 anos volvidos, onde já não competia há 48 anos. 


No último ano, na época de 2024/2025, sagraram-se campeões nacionais, conquistando um título que lhes fugia há 90 anos! Na presente época desportiva, disputaram a fase de liga da Liga das Campeões, o que constitui mais um grande feito na sua caminhada. Além disso, lidera, à data em que escrevo, o campeonato belga, estando na frente da luta pela conquista do bicampeonato, algo impensável até à chegada de Tony Bloom, em 2018, ao clube. 



Para terminar, deixo ainda um caso que tem estado um pouco pelas bocas de todo o mundo, e que pode vir a marcar uma ruptura notável no paradigma do futebol escocês: o sucesso na época atual, até ao momento, do Heart of Midlothian, mais conhecido como Hearts. Tendo o clube sido alvo de um investimento de mais de 10 milhões, no término da época passada, por parte do proprietário dos dois clubes mencionados acima, Tony Bloom vem a exercer uma influência cada vez mais preponderante nos destinos do mesmo, depois de ter adquirido 29% das suas ações.


Recorrendo aos mesmos meios utilizados em Inglaterra e na Bélgica, com as devidas adaptações, naturalmente, o clube de Edimburgo tem desafiado todas as probabilidades e procura alcançar um feito que lhe foge desde 1960 - a conquista do campeonato. Diga-se, aliás: mais do que a importância e significado que possa possuir para o clube a conquista de um campeonato nacional, deve enfatizar-se o facto de que, a consumar-se este feito, seria o primeiro título alcançado por uma equipa fora dos dois grandes de Glasgow, Celtic e Rangers, que detêm a hegemonia do futebol escocês, desde 1985 (na altura, conquistado pelo Aberdeen, orientado por um tal Sir Alex Ferguson). 


Servindo-se do aumento da capacidade de recrutamento de novos jogadores, registaram-se 16 reforços no último mercado de verão, oriundos, por exemplo, de mercados mais periféricos (Noruega, Eslováquia ou Islândia). Sublinha-se, igualmente, a preferência por jogadores relativamente jovens, escolhidos numa perspectiva de futuro e de projeto a longo prazo, dando primazia ao potencial e adaptabilidade em vez da reputação de eventuais contratações. Dentro dos novos nomes na equipa, não podia deixar de fazer referência a Cláudio Braga, jogador português, proveniente da 2a divisão norueguesa, por uma módica quantia de, aproximadamente, 550 mil euros, que já é visto, por imensos adeptos, como uma referência do clube. Conta, até ao momento da redação deste artigo, com 36 jogos e 15 golos, sendo, assim, o jogador com mais jogos disputados e também o melhor marcador do clube na presente época. 


Ainda que possamos argumentar que os dois favoritos na corrida pelo título quase por natureza, Celtic e Rangers, não atravessem uma conjuntura propriamente saudável (com mudanças diretivas e conflitos de interesses entre dirigentes e adeptos, onde tem reinado um clima de maior instabilidade, que se traduz, por sua vez, num desempenho dentro de campo menos bem-sucedido), é inegável o mérito atribuído ao Hearts, que ocupa o primeiro lugar da tabela com toda a justiça. 


Para estabelecer uma comparação mais fundamentada entre estas equipas, devemos atentar, por exemplo, para o respetivo valor de mercado de cada plantel: o do Hearts encontra-se, segundo dados do Transfermarkt, na casa dos 19 milhões, valores esses consideravelmente inferiores aos dos rivais de Glasgow: o Celtic lidera com um valor de 133 milhões e o Rangers com 105 milhões. 


Mesmo que, colocando-se o cenário de o clube não conseguir manter-se na liderança do campeonato até ao fim, assume já contornos notáveis o progresso alcançado enquanto organização, desportiva e financeiramente. Contribuirá, igualmente, para uma maior valorização do futebol escocês, melhorando a sua reputação e promovendo um aumento da competitividade dentro do próprio campeonato e, certamente, assistiremos a mais clubes a seguirem o modelo do Hearts, que provocará, por sua vez, a longo prazo, uma futura necessidade de os clubes se reinventarem e permanecerem competitivos! 


António Pinho

Departamento Desporto



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