Os abusos sexuais na Igreja: a ponta do icebergue
- Diana C. S.
- 4 de mar. de 2023
- 3 min de leitura
A Igreja Católica Portuguesa, traçada pela sua longa experiência e tradição na prática de auxílio à população, vê-se hoje confrontada com um tema fraturante com os seus próprios princípios e valores: os abusos sexuais. Ao longo dos últimos meses, fomos presenteados com notícias a respeito dos abusos sexuais no seio da Igreja Católica, colocando-se um ponto final a décadas de silêncio e ocultação, por parte da própria Instituição. Fora longa e voluntária a cegueira da hierarquia eclesiástica numa tentativa de encobrir aquilo que os envergonha.
Parece paradoxal, uma instituição pautada pela solidariedade ser incapaz de lidar com os casos de abusos, com os perpetradores e até com as próprias vítimas. Que notável parece o trabalho do clero em silenciar, omitir e até descredibilizar as vítimas, não esquecendo a proteção que sempre fora oferecida aos padres agressores. O silêncio e a omissão pareceram a melhor solução. Felizmente, não se calaram as vozes.

Nas últimas sete décadas, foram abusadas sexualmente mais de 4.800 crianças no seio da Igreja Católica em Portugal, segundo uma estimativa do relatório apresentado pela Comissão Independente.

A questão tem abalado profundamente a sociedade, e não fosse Portugal um país exacerbadamente católico talvez as sucessivas desculpas da Igreja servissem para “tapar o sol com a peneira”, numa tentativa falhada para esconder a asneira, ou melhor dizendo, as várias e repetidas asneiras.
É hora de assumir os erros e os crimes cometidos, é hora de apresentar uma política de transparência e abertura, é hora de adotar um papel ativo no fomento da denúncia por parte das vítimas.
Mas que justiça se pode fazer agora, quando a maioria dos casos prescreveu? Desde logo, há uma justiça fundamental de que não nos podemos esquecer: a justiça para o futuro, associada à proteção das gerações vindouras. É essencial que todo o escândalo em volta da Igreja sirva não só para retaliar aqueles que injustamente padeceram às mãos dos que tinham por única missão a sua proteção, mas também procurar garantir a inexistência de vítimas futuras.
Revela-se essencial fomentar um espaço seguro, de abertura e compreensão, para que aqueles que foram ou ainda são vítimas de abuso sexual possam partilhar a sua história e possam ser ajudados. Mais do que uma recolha de testemunhos, é necessário um acompanhamento psicológico/técnico, sendo impensável deixar estas crianças, jovens ou até adultos desamparados.
Atualmente, para além da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos sexuais contra as crianças na Igreja Católica Portuguesa, a própria Igreja avançou com a criação de Comissões diocesanas, destinadas a investigar estes mesmos casos. Existem claramente diferenças de atuação entre ambas as iniciativas, já que os casos reportados à Comissão independente são um número bastante superior àqueles que são dados a conhecer às Comissões diocesanas. Esta diferença justifica-se, desde logo, pela própria confiança que as vítimas têm em confidenciar à Igreja os males que a própria lhes infligiu. Além do mais, muitas destas comissões foram criadas não com uma simples interpelação, mas por uma clara imposição, já que foram muitos os bispos que se recusaram até ao último momento a criar estas instituições (destinando-se estas comissões a investigar um mal que não existe, segundo alguns).
Coloca-se essencialmente a seguinte questão: haverá Igreja depois do escândalo? Há evidentemente uma necessidade de reconhecimento dos erros cometidos. A reparação da Igreja passará inevitavelmente pelo assumir dos crimes. Ninguém defenderá o fim de uma instituição tão essencial no seio da sociedade, mas tem de existir uma posição única, sólida e transparente por parte da Igreja. É crucial um reconhecimento real. A contínua existência de posições fragmentadas, bem como a constante resistência por parte dos bispos e dos padres, contribui para o medo e para o afastamento. A Igreja tem agora uma oportunidade única para se redimir, de assumir uma posição, não bastando um pedido de “perdão”. Chegou a hora da Igreja se reinventar: CHEGA DE DESCULPAS!
Diana Cunha Silva
Departamento Fazer Pensar
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