Pensa Lá Nisso: Março
- Departamento Fazer Pensar
- 29 de mar. de 2023
- 4 min de leitura
E quando o Estado de Direito não chega?
O curso de Direito, por vezes, pode levar-nos a esquecer que na realidade a lei só importa em certa medida. Esquecemos que a lei é só para alguns, e de formas diferentes consoante quem somos. Não devia ser, não está escrito que o será, mas acaba por ser.
Por outro lado, se a lei funciona para nós, nos garante paz e estabilidade, temos tendência a descansar nesse privilégio e a esquecer quem não tem a mesma sorte.
Esta reflexão ocorreu-me quando uma colega partilhou que foi assediada no Metro, algo que infelizmente é frequente para as mulheres. Devia gritar? Devia lutar? Devia tentar identificar o agressor, que logo desapareceu pela multidão sentindo-se impune e livre? Devia apresentar queixa? Nada lhe traria a paz de volta, só mais riscos ou dor, e nem estamos perante os casos mais perigosos da violência sexual. E, assim, seguem milhares de agressores e milhões de vítimas.
Não cabendo a um estudante da FDUP defender soluções violentas e pouco ortodoxas, como as Gulabi Gang, pergunto apenas: e quando o Estado de Direito não chega?
Guilherme Alexandre
Castração Química: Nunca será a solução!
Nos últimos tempos, a defesa da Castração Química tem retornado ao centro do debate no nosso país. Porém, questiono-me: em que se fundamenta a Castração Química? Em evitar que o ofensor cometa, novamente, uma violação? Se assim for, urge relembrar que existem outras partes do corpo, como as mãos, que podem ser utilizadas para praticar um abuso sexual. Um crime deste cariz não se circunscreve apenas aos órgãos do agressor, pelo que se este projeto se basear em tal fundamento, então tal conceção é totalmente desprovida de conhecimento básico. Será, por outro lado, o forte desejo da punição como forma de retribuir ao indivíduo o mal cometido? Já imensos teóricos discutiram o verdadeiro objetivo da pena. E, hoje, a pena não assenta apenas na responsabilização do indivíduo pelo ato criminoso, senão também na sua futura reinserção social. Será, ainda, este desejo de punir, fundamentado nas penas permanentemente decretadas no âmbito dos crimes sexuais - precisamente, pena suspensa e liberdade condicional - ? Porque, de facto, acresce a sensação de que não existe justiça... E, deveras, não existe. Assistimos, diariamente, a uma cultura de culpabilização da vítima perpetuada pelo sistema de justiça. Assim sendo, mesmo que a Castração Química tenha como mero objetivo a punição, não se atua sobre o principal problema do sistema. Continuaríamos a permitir a sobrevivência das crenças sociais assentes na culpabilização da vítima – sendo que o que esta mais necessita, num primeiro momento, é de apoio e ajuda. Um projeto, sem um objetivo claro, despido de evidências científicas e de princípios primordiais, constituirá a solução?
Maria João Pereira
A saúde mental dos estudantes também entra no cálculo da média?
Um estudo realizado pela Universidade de Évora concluiu que 1 em cada 5 estudantes sofre de alguma doença mental. Dentre os diagnósticos mais mencionados estão a ansiedade e a depressão.
Desde o facto de que cada vez é mais difícil corresponder às expectativas do mercado de trabalho até a toda a conjuntura político-econômica que temos vivido nos últimos tempos, passando pela quota parte que as redes sociais possam ter, são tantas as variáveis desta equação que não caberiam nestas linhas.
Uma coisa é certa: além da desmistificação de estigmas em torno da saúde mental e do incentivo a que as pessoas estejam mais atentas e cuidem da sua, é urgente que o Sistema Nacional de Saúde acompanhe esta evolução. Segundo notícias de 2021, o tempo de espera por uma consulta de psicologia pode variar entre 2 e 3 meses para doentes não prioritários.
Saúde mental é saúde e o teu bem-estar ultrapassa os 20 valores.
Diana Reis
Portugal e a saúde mental
Um relatório das Nações Unidas coloca Portugal em terceiro lugar no que toca ao consumo de psicotrópicos, sendo que, em 2020, consumiram-se quase 80 doses diárias de benzodiazepina, por cada cem mil habitantes. A benzodiazepina é uma classe de fármacos psicotrópicos usada como ansiolítico, sedativo, hipnótico ou relaxante muscular, que são normalmente prescritos para tratar a depressão, a ansiedade, a insónia, entre outros.
O que será que isto diz em relação ao estado da saúde mental em Portugal? Psiquiatras referem que os poucos recursos humanos na área da psicologia no SNS podem ser uma das causas destes números elevados. Muitos referem também que a pandemia originou muitas perturbações de ansiedade e que por causa disso, pode ter existido um aumento do consumo.
O que deverá então Portugal fazer face a este cenário? Um investimento sério em psicólogos no SNS; uma sensibilização em diversos setores da sociedade, acerca de temáticas da saúde mental; uma promoção de bons hábitos de estilo de vida, que estão relacionados com a ansiedade…Caso para dizer que o que falta não são opções, mas sim vontade. Trabalhemos em conjunto, portanto, para um futuro mais risonho e em que as receitas de benzodiazepina se utilizem apenas nos casos necessários e por um período temporal limitado.
Inês Gomes Barbosa
Vamos entrar numa nova crise financeira?
O banco Silvergate Capital fecha voluntariamente. O Silicon Valley Bank acaba por falir. Segue se o fecho do Signature Bank. E como cereja no topo do bolo, segue-se o derrapar do Credit Suisse. Com isto, a Banca Europeia registou quedas históricas em bolsa. A questão que se coloca é: o que está a acontecer agora é de facto comparável ao que aconteceu em 2008?
Também a crise financeira de 2008 teve origem no setor financeiro e ganhou proporções globais, provocando uma recessão na economia global. Segundo os especialistas de mercado, a turbulência bancária não é comparável à crise financeira de 2008, já que hoje o sistema bancário europeu também é “resiliente, apresentando posições de capital e liquidez fortes”, segundo o próprio BCE.
É de realçar a importância das intervenções das autoridades nos EUA e na Europa, conseguindo apaziguar os ânimos e restabelecer a confiança dos investidores, empresas e famílias, conseguindo evitar que uma crise financeira se alastre a todo o mundo. A confiança é essencial para a banca.
Evidentemente que toda a crise deve ser analisada com cuidado e apreensão, e a atuação dos bancos centrais é a chave-mestra para evitar uma recessão na economia global.
De todo o modo, vivemos num novo mundo, cada vez mais global, interligado, nos quais os mercados assumem um papel determinante. Como se assistiu esta semana, uma simples (mas inocente?) declaração por parte do maior acionista do Credit Suisse, recusando uma eventual injeção de capital adicional, provocou um efeito dominó nos mercados europeus, deixando as principais praças europeias no vermelho.
Diana Cunha Silva
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