Portugal é 11 contra 11… o resto nem entra em campo
- Gabriela Baltazar
- 30 de nov. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 9 de dez. de 2024
Atualmente, em Portugal, falar de desporto é, quase, sinónimo de falar de futebol. Conversas de café? Futebol. Redes sociais? Futebol. Jantares de família? Futebol. É, portanto, inegável o facto de que o futebol é um dos fenómenos sociais mais importantes na sociedade, capaz de mobilizar centenas de milhares de portugueses. Contudo, para a valorização do desporto no nosso país é crucial adotar uma abordagem (significativamente) mais ampla que vá para além do foco predominante no futebol.
Um dos exemplos mais evidentes desta centralidade do futebol relaciona-se com o facto de que uma das perguntas mais comuns realizadas entre os portugueses, a par de “Como te chamas?” ou “De onde és?”, ser “Qual é o teu clube? Sporting, Porto ou Benfica?”. Se, a esta última pergunta, responderes “Não apoio nenhum!” ou “Não ligo a futebol!”, és, evidentemente, visto como um lunático. Longe vão os tempos em que o futebol se resumia à pura e simples atividade física. Na atualidade , a conexão emocional por parte dos portugueses relativamente ao “desporto-rei” (e, claramente, em relação ao seu clube) é muito intensa e esse sentimento, passado de geração em geração, relega para segundo plano as outras modalidades. Desde as enchentes nos estádios, até aos intermináveis debates acerca de lances e grandes penalidades, estes fatores acabam por ofuscar outras modalidades desportivas que, apesar de revelarem talento e conquistas, são menos reconhecidas e, por isso, alvo de menor investimento. Portanto, em virtude das rivalidades históricas entre Sporting, Benfica e Porto (não desmerecendo os outros clubes), o espetáculo está garantido e, com ele, toda a atenção do público e do investimento.
E com isto, surge a seguinte dúvida: porque é que o foco reside no futebol e não em qualquer outra modalidade? É uma questão que coloco frequentemente, mas não consigo chegar a uma conclusão definitiva. Simplesmente, acho que o “mindset” da cultura portuguesa já está formatado (quase desde o nascimento) para o futebol e para uma equipa em concreto. Admito ser suspeita quanto a este tema, já que fui inscrita como sócia do “meu” Sporting ainda no meu primeiro ano de vida; no entanto, isto só reforça a ideia da enorme influência que o futebol exerce nas famílias portuguesas.
A título de exemplo, em 2021 a seleção nacional de futsal ganhou o campeonato mundial; porém, a maioria dos portugueses não se lembra deste título, mas lembra-se, obviamente, do Euro 2016. São factos como este que, parecendo insignificantes, aumentam cada vez mais o foco no “desporto-rei” e criam, consequentemente, uma desproporcionalidade entre modalidades.
Para entender melhor esta desproporção, basta observar a forma como o futebol é tratado pelos media: os jornais desportivos dedicam a esmagadora maioria das suas páginas ao futebol; as notícias da televisão raramente mencionam outras modalidades, exceto em momentos de grande vitória, e os debates desportivos televisivos são sempre sobre o futebol- cartões vermelhos, grandes penalidades, árbitros ou transferências. Até mesmo os “três grandes”, que possuem equipas em modalidades como o basquetebol, hóquei em patins ou andebol, acabam sempre por priorizar o futebol nas suas estratégias de marketing e comunicação.
A disparidade é, também, evidente no financiamento. Enquanto o futebol movimenta milhões de euros em patrocínios, bilheteiras e direitos televisivos, as restantes modalidades dependem, muitas vezes, de verbas públicas e de pequenos apoios locais. Essa desigualdade de recursos reflete-se na qualidade das infraestruturas, no nível de competição e, até, no número de praticantes.
É inevitável deixar de referir as consequências que esta problemática comporta: existem tantas outras modalidades e atletas incríveis, que se torna evidente a sensação de estarmos a desperdiçar a oportunidade de conhecer outras histórias de sucesso, de superação, de demonstração de extrema dedicação e capacidade de trabalho. Histórias essas que são verdadeiramente inspiradoras mas que, por não se relacionarem com futebol, são ignoradas. Neste contexto, tenho de mencionar a minha admiração por atletas como a Patrícia Mamona, o Nelson Évora ou Fernando Pimenta que demonstram que o sucesso é possível em contextos de menor apoio e que, mesmo partindo do zero, é possível chegar ao topo.
O domínio do futebol cria, então, um ciclo difícil de romper: esta modalidade absorve quase todos os recursos, enquanto as demais continuam “a ver do banco”. E nesta vertente, não posso deixar de fazer referência a todos aqueles que só vêm futebol durante o ano mas que, quando chega a época dos eventos desportivos mundiais, como os Jogos Olímpicos, esperam grandes feitos e grandes resultados, ficando profundamente ofendidos (desculpem o sarcasmo) pela inexistência de um lugar no pódio por parte dos atletas portugueses nas diversas modalidades.
Assim, efetivamente, fica difícil Portugal obter sucesso internacional: o desinteresse geral faz com que menos pessoas escolham praticar certas modalidades, reduzindo o nível de talento e a competitividade a longo prazo, o que em si gera uma menor disponibilidade de financiamento, recursos e patrocínios.
Por fim, reforço a ideia de que o futebol é, sem sombra de dúvida, uma parte vital da identidade e cultura desportiva portuguesa, mas não pode ser a única. Apenas quando existir um compromisso real de diversificar o investimento, a atenção mediática e o apoio público é que Portugal se poderá afirmar como uma verdadeira potência desportiva, onde o talento é valorizado em todas as suas formas e não apenas no relvado.
Resta-me, apenas, referir que o desporto não é só 11 contra 11, sendo crucial deixarmos “entrar em campo” todas as outras modalidades.
Gabriela Baltazar
Departamento Desporto
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