“Prosopagnosia Social” — A Perda de Individualidade
- Miguel Almeida

- 13 de mar.
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A ideia que levou à criação do espelho era a de auxiliar o Homem a admirar a sua imagem. Mas o que é que aconteceu, desde esta criação milenar, para que nos tornássemos incapazes de nos vermos através do nosso próprio reflexo? O que é que causou esta “prosopagnosia social”?
A sociedade atual ainda se agarra a uma falsa sensação de liberdade quanto ao nosso próprio pensamento, ao nosso modo de agir e à forma como nos percecionamos a nós próprios.
Sem incorrer na falácia do determinismo radical, onde tudo está predestinado, a verdade é que os fatores condicionantes das nossas decisões se tornam cada vez mais estreitos, cada vez mais inquisidores das nossas escolhas. A beleza da liberdade é ter opções. É conseguir, dentro dos limites impostos pela metafísica, definir como nos queremos posicionar face a um ato de outrem ou a um mero acontecimento natural.
Mesmo vivendo num regime democrático, onde a liberdade ainda é uma das garantias mais absolutas da nossa sociedade, ainda nos autolimitamos diariamente, através do fenómeno do “pensamento de grupo”. Sendo um animal social (já o atentava Aristóteles), o Homem não consegue separar a sua identidade individual da sua identidade coletiva na perfeição - o que não é, por si só, um problema. Contudo, a psicologia social consegue explicar-nos como é que este fenómeno poderá, por vezes, extinguir a individualidade do ser humano — característica fundamental do seu desenvolvimento social e até cognitivo.
Segundo Irving L. Janis, "[o pensamento de grupo] é uma deterioração da eficiência mental, da capacidade de confronto de realidade e julgamento moral que resulta de pressões dentro do grupo."
A verdade é que se observa, cada vez mais, na nossa sociedade, um reacender do pensamento arcaico de “aniquilação da diferença”, quase como se o ser humano, ao nascer, já tivesse um número de série e um propósito determinado. Qualquer desvio é considerado um erro, um defeito, sem qualquer possibilidade de aproveitamento. Isto é facilmente verificável no Ensino, que ainda insiste em utilizar modelos antiquados de aprendizagem inflexíveis e focados na coletividade, esquecendo-se completamente que cada estudante é diferente, é dizer, uma pessoa própria com ritmos de aprendizagem distintos.
Ainda que este modelo de padronização da produção tenha resultado na Revolução Industrial, a verdade é que o ser humano é, na sua essência, produto de si mesmo. Não sendo uma máquina, uma peça substituível, ou uma ferramenta de função única, é capaz de usar a sua diferença em prol de um fim coletivo.
De facto, é uma pena que essa mesma coletividade prefira, muitas das vezes, adotar comportamentos idênticos aos de uma maioria — cada vez mais em crescimento —, quando é, na sua individualidade, completamente distinta do grupo. Até que ponto é que a necessidade de pertença e inclusão devem persistir em excluir a diferença? Não seria isso, ironicamente, paradoxal?
Miguel Almeida
Departamento Crónicas

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