Quantos Saramagos é que poderiam ter existido?
- Matilde Almeida

- 14 de abr.
- 3 min de leitura
Na visita guiada à Casa dos Bicos (Fundação José Saramago), uma das guias perguntou quantos Saramagos é que existiram e nunca conhecemos devido a uma ditadura opressora e discriminatória. À primeira vista, a pergunta pode parecer ofensiva à genialidade da sua pessoa e trabalho, ao seu próprio legado. No entanto, não deixa de ser uma pergunta pertinente e indutora de reflexão sobre o passado e o presente.
Quantas raparigas foram obrigadas a lavar pratos, esfregar trapos e criar crianças que nunca deveriam ter sido suas? Quantos rapazes foram obrigados a morrer em guerras orquestradas por homens distantes e a trabalhar em indústrias cruas? Quantos jovens salvariam o mundo com ciência, arte e literatura e não o destruiriam com bombas, caso tivessem nascido num berço de ouro?
Tendo por base dados do Público, estima-se que em 1970 apenas 2.2% da população entre os 25 e os 34 anos concluiu algum nível de ensino superior. Em 2020, a percentagem já era 41,91%, sendo que, atualmente, 60% dos diplomados são mulheres.
Nos anos 60, apenas uma em cada quatro mulheres sabia ler.
Os tempos mudaram, as oportunidades também, tal não é debatível. Não obstante, continuam a existir inúmeras barreiras socioeconómicas ao brilhantismo e à arte de tantos: apesar de, para demasiados, ainda não ser uma possibilidade ingressar no ensino superior, para os que é, nem sempre é possível ganhar asas.
Ser um estudante implica custos, especialmente caso sejam deslocados, o que corresponde à maioria dos alunos do Porto e de Braga. Em apenas um ano, a Universidade do Porto recebeu 24 mil jovens de todas as regiões do país.
Cada uma destas deslocações implica esforços para famílias das classes média e baixa, mais horas de trabalho e dedicação, para que filhos possam ter melhores condições de vida e empregabilidade do que pais, avós e todas as gerações anteriores.
Em áreas em que a concorrência é mais elevada, em que os empregos estão em maior risco de ser substituídos, destaca-se a necessidade de ser não só um aluno com uma média respeitável, mas também a importância de ter uma vida preenchida com as atividades certas.
Mas até que ponto é que ser um destes alunos de excelência não é um maior encargo financeiro?
Quantos serão os alunos que têm que trabalhar para arcar com os custos da própria educação de modo a não serem pesos a famílias já financeiramente saturadas?
Quantos serão os jovens que olham pela janela dos trabalhos e pensam na vida que poderiam ter se tivessem mais espaço e mais apoio para crescer?
Tais cenários podem parecer absurdos, mas não são. Uma mera melhoria de nota tem custos associados, que podem parecer irrelevantes, mas para muitas famílias não o são. É um bocadinho aqui, é um bocadinho ali e tudo pesa.
No fim do dia, quando se pondera entre abastecer mais gasóleo inflacionado nos carros para ir visitar familiares, comprar comida, pagar as contas para se sobreviver e pagar cursos suplementares que ficarão perfeitos no Curriculum Vitae, Erasmus, elementos da vida académica para se integrarem ou outras despesas que ao lado das primeiras parecem fúteis, a escolha é óbvia.
Muitas vezes o problema não é apenas o dinheiro, existem também custos temporais: um trabalhador-estudante não tem propriamente disponibilidade para aprender três línguas fluentemente, fazer networking quando não tem família nos respetivos ramos de trabalho, estudar, trabalhar e dormir oito horas.
A realidade das elites portuguesas e de muitos estudantes abastados não é a mesma que a da maioria, e é possível que ainda não tenhamos chegado a uma solução para estes problemas, porque ainda não admitimos que estes têm um peso tão impactante como na realidade têm.
Talvez não esteja em causa − pelo menos nestes casos − se vão conseguir alcançar um equilíbrio ao longo da vida, mas com certeza está em causa se algum dia alcançarão o seu potencial num mundo tão fragmentado como este, que aparenta querer auxiliar a nossa geração, mas que nunca o faz bem o suficiente. Fica-se sempre pelo quase, assim como muitos de nós vamos ficar.
E, portanto, a pergunta permanece, meio século mais tarde: quantos Saramagos é que existem e nunca os conheceremos?
Matilde Almeida
Departamento Sociedade
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