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"Queria um galão, um pingado e meia torrada, se faz favor"

Foto do escritor: Maria Queirós
Maria Queirós
14 de out.
4 min de leitura

“Bom dia! Queria um galão, um pingado e meia torrada, se faz favor.” - pede Carmo ao balcão de um café no coração de Lisboa. Isso, o café já não vende, mas a Carmo pode sempre escolher uma sandes, uma pancake ou uma avocado toast no menu com o smoothie.


“Santo António – O Casamenteiro de Lisboa”, realizado por Ruben Alves e protagonizado por Rita Blanco e Joaquim Monchique, chegou aos cinemas no mês passado e parece ter gerado uma reação de carinho pela tradição e pela portugalidade, mas também suscita reflexões sobre o rumo da identidade cultural portuguesa.


A narrativa acompanha Carmo (Rita Blanco) e Valentim (Joaquim Monchique), funcionários municipais responsáveis pela organização dos Casamentos de Santo António, enquanto tentam preparar a edição mais emblemática do evento, para evitar que este seja vendido a uma empresa francesa. Segue-se uma corrida contra o tempo, com um orçamento muito limitado, mas sempre com foco numa condição: modernizar sem perder a tradição. Mas o esforço em manter a identidade portuguesa parece não ser partilhada pelo resto de  Lisboa, assentando aí uma das principais críticas da comédia - a gentrificação e a perda cultural.


A ameaça social e cultural com que a capital retratada no filme se depara ultrapassa as imagens projetadas na sala de cinema. Na “Grande Entrevista” da RTP, quando questionada sobre se considera que, neste momento, Lisboa sofre o risco de perder a sua identidade, Rita Blanco responde frontalmente: “Não há um risco, já é uma realidade.”. Lentamente – ou talvez não tão lentamente –, o resto do país está a ser reflexo daquilo que já é comum na maior cidade do país: a tasca portuguesa que fecha para abrir mais um restaurante italiano; o café que fecha para abrir um Starbucks; a padaria na esquina da nossa rua que fecha para abrir um brunch; ou a mercearia que fecha para abrir um minimercado de uma cadeia internacional.


Mas o desbotar da essência portuguesa não se deixa ficar pelas lojas e montras das ruas das grandes cidades: à medida que grandes empresas ou negócios “instagramáveis” se instalam, a agitação turística cresce, os preços sobem e aqueles que durante tantos anos ali viveram e construíram uma comunidade são desalojados e obrigados a deslocarem-se para outras zonas da cidade. Não só isto se afigura como desumano para estes residentes, como rompe o tecido comunitário que ali se formou durante décadas. Perdem-se assim os vizinhos que conversam de janela para janela, os “Bom dia, senhor Joaquim”, as crianças que pedem sempre uma “broinha” de mel na mesma padaria – no fundo, as familiaridades que nos caracterizam.


Paralelamente, e fugindo um pouco daquilo que o filme aborda, mas analisando o cenário no qual este se insere enquanto um filme português, se esta cultura do quotidiano começa a escapar-nos, acredito que a cultura artística padece também, de forma muito mais acentuada, deste abandono. Tal como diz Rita Blanco, em conversa com Ruben Alves na Esquire Portugal: “Creio que cada vez há menos dinheiro para a cultura e isso cada vez interessa menos ao poder [o Estado]”. O cinema, o teatro, a música, a literatura, a pintura, a arquitetura em Portugal, são quase manifestos de resistência a esta negligência por parte do investimento público, mas também de sobrevivência à desconfiança e hipercriticismo que os próprios portugueses dirigem à própria arte nacional – e que penso que seja, de certa forma, o nosso “suicídio cultural” e uma das nossas grandes falhas.


Atualmente, presenciamos muitas vezes, principalmente vindo de grupos nacionalistas ou ditos “patriotas” – ainda que não saibam o que é sê-lo –, acusações de que os responsáveis pela dissipação da essência deste país são os imigrantes (curiosamente, sempre não europeus). Contudo, esta retórica é simplista, fácil de digerir, uma vez que é sempre mais fácil apontar o dedo ao outro, do que assumir a responsabilidade. É até uma desonestidade intelectual, visto que os costumes portugueses foram moldados por outros costumes e outros povos que aqui já habitaram.


Ainda que muito pouco seja investido, por parte do Estado, no setor da cultura, quando comparado com os restantes países europeus, habituamo-nos a encarar a nossa própria arte, a nossa gastronomia, o nosso próprio comércio como se fosse algo de qualidade inferior ao que é estrangeiro. Preferimos beber um latte a uma meia de leite; preferimos comprar aqueles sapatos de marca italiana iguais aos da sapataria ao fundo da rua; preferimos ver um qualquer filme americano em vez de um português – para lucrar, que lucrem com aquilo que não é nosso, porque o que é nosso não é chic. Não sabemos valorizar aquilo que é feito pelos portugueses, nem tão pouco aqueles que o fazem e, em decorrência desse desdém, não sabemos partilhar com as outras culturas aquilo que é a nossa identidade, porque as preferimos em detrimento da nossa – talvez ser português é, também, ter esta ligeireza provinciana (já o cantava Luís de Camões e censurava Eça de Queirós). 


A globalização é um fenómeno inevitável, mas o desaparecimento da nossa identidade não tem de ser. Não é o diálogo com as outras culturas que ameaça a nossa “portugalidade”, mas a renúncia de cuidar daquilo que é nosso e de tentar modernizar a mesma, sem que o seu núcleo se perca. É desta forma que “Santo António - O Casamenteiro de Lisboa” não passa pelos cinemas apenas como uma mera comédia. Saímos da sala de cinema, não só com um orgulho desta cultura que nos é tão familiar, mas também dos brilhantes atores que representam o cinema português. E é precisamente por isso que este filme é também uma carta de amor a Lisboa e aos elementos que definem a nossa essência enquanto portugueses. 


Maria Queirós

Departamento Cultural


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