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Saramago e a censura pós-ditadura

  • Foto do escritor: Inês Barbosa
    Inês Barbosa
  • 16 de nov. de 2022
  • 2 min de leitura

@Arquivo FJS


José de Sousa nasceu a 16 de novembro de 1922 em Azinhaga, no Ribatejo. Só mais tarde, aos sete anos, se descobriu que se chamava, afinal, José de Sousa Saramago, devido à alcunha por que era conhecida a família do seu pai, e que o funcionário do Registo Civil achou por bem acrescentar sem nada dizer.


Saramago foi consensual em pouca coisa durante a sua vida: a sua escrita e a sua vida política são provas disso mesmo. Essa rebeldia foi de tal forma marcante na sua escrita que, ainda hoje, se ouve comentários como “ai não, não consigo ler, não tem jeito nenhum, não usa pontuação nem marca os diálogos". Sou, no entanto, da opinião de que só diz que não consegue ler Saramago, quem efetivamente nunca o tentou. Em relação à sua vida política, pouco se pode dizer, visto que se filiou ao Partido Comunista Português (PCP) em 1969, ainda em ditadura, e com esta relação se manteve durante toda a sua vida. Do pouco, no entanto, pode-se dizer muito. O PCP nunca foi, nem nunca será, felizmente ou infelizmente, dependendo da ótica da pessoa que esteja a ler este artigo, um partido consensual no cenário político português. Isto não deteve, no entanto, o Nobel de defender publicamente os seus valores ao longo da sua vida.

De todas as suas obras, o “Evangelho segundo Jesus Cristo” foi a mais polémica. Publicado em 1991, o livro conta a história de Jesus e da família, de um modo totalmente humanizado e crítico. O lápis azul já tinha há muito deixado de exercer funções, mas isso não significa que a censura não possa adotar outros contornos, adaptando-se. E foi exatamente isso que ocorreu quando o subsecretário de Estado da Cultura à época, António Sousa Lara, vetou a obra como um dos livros nacionais candidatos ao Prémio Literário Europeu. O motivo? Não representava Portugal, pois ia contra princípios relacionados com o património religioso dos cristãos. Ofende, portanto, a moral cristã. Mas então a arte tem de se conformar com a maioria? Com a religião? Com o que é “correto”? Não é exatamente o contrário, o papel da arte na sociedade? Como bem o diz James Baldwin na sua célebre frase: “artists are here to disturb the peace”.


Depois de toda esta polémica, José Saramago e Pilar del Río, jornalista espanhola por quem se apaixonou o escritor, já com intenções de deixar Lisboa, decidem deixar Portugal e partir em direção à ilha de Lanzarote, em Espanha. Por lá ficaram e foi, efetivamente, à espera de um voo em direção à ilha que o escritor recebeu a notícia que ganhou o Prémio Nobel, em 1998. Considero um prémio destes uma boa forma de relativizar e minimizar as pequenas polémicas nacionais, e de mostrar que, pelo menos uma tal de Academia Sueca vê um talento enorme na sua escrita, com mais ou menos críticas agudas aos temas considerados “intocáveis”.


Em modo de conclusão, convido todos a ler uma obra do Saramago de modo a festejar o centenário de um dos maiores da língua Portuguesa!


Inês Gomes Barbosa

Departamento Fazer Pensar


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