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Tolkien e Herbert: o binómio idealista de dois génios

  • Foto do escritor: Gonçalo Pinto
    Gonçalo Pinto
  • 12 de nov.
  • 7 min de leitura

“É impossível para um autor ainda ativo ser justo perante outro autor a trabalhar em linhas semelhantes. Pelo menos, assim penso. Na realidade, eu não gosto de ‘Dune’ com alguma intensidade, e nesse caso infeliz é melhor e mais justo para com o outro autor, manter o silêncio e recusar o comentário…” 


Assim se expressa John Ronald Reul Tolkien, também conhecido por J.R.R Tolkien, acerca do épico da ficção científica de Frank Herbert, numa carta enviada em 1966 em resposta a um dos seus fãs: John Bush. John enviara ao escritor um exemplar do livro Dune com o intuito de dar a conhecer a Tolkien a obra recém-lançada em 1965, bem como de conhecer a sua opinião sobre a mesma. Fãs mais ávidos do escritor reconhecerão as suas opiniões polémicas e negativas relativamente a instituições como a Disney e o seu criador, Walt Disney, ou até mesmo a clássica rivalidade e discórdia que constantemente se verificava entre o escritor e o seu velho amigo, C.S. Lewis, autor de As crónicas de Nárnia. O mesmo expressava abertamente a sua aversão à obra da Disney, respeitando determinadas características dos seus filmes, porém, vetando sempre qualquer intenção de a empresa americana alguma vez adaptar alguma das suas obras para o cinema, como ele próprio escreve na sua carta número 13. O maior mistério com Tolkien foi sempre entender os motivos por trás dos seus desgostos; porém, analisando o trabalho de Herbert e opondo o mesmo ao de Tolkien, conseguimos delimitar os motivos necessários e amplamente aceites pelos estudiosos do autor para explicar esta receção negativa por parte do autor britânico.


Para além dos dois géneros opostos em que focaram, foi a religião um dos principais pontos de separação entre a visão artística destes dois autores. Tolkien era um devoto católico e falou inúmeras vezes sobre essa sua faceta, bem como sobre a inspiração que teve na criação da Terra-Média e dos seus contos, a sua escrita épica, quase bíblica, a criação do mundo, a predominância da batalha do bem contra o mal…tudo isto era algo inerente da personalidade do autor. Já nas primeiras palavras escritas no Silmarillion, aquela que seria a compilação de toda a história do seu universo feita pelo seu filho, Tolkien mostra uma semelhança com o livro Genesis e ao seu início, pois este escreve: “Havia Eru, o Único, que em Arda é chamado de Ilúvatar. Ele criou primeiro os Ainur, os sagrados, gerados por seu pensamento, e eles faziam-lhe companhia antes que tudo mais fosse criado.”


O próprio Ilúvatar era uma representação do Deus católico – um ser divino e bondoso que envia os seus Ainur para criar e moldar o mundo. Mundo esse que seria envolto em guerras e trevas, muitas vezes causadas por um desses Ainur: esse seria Melkor, uma personagem claramente inspirada em Lúcifer. Através de alegorias (como o anel em O Senhor dos Anéis ser uma representação do pecado e tentação da raça humana; ou o famigerado mago Gandalf como uma espécie de “Messias profético” que, após a sua ressurreição, orienta as forças da luz contra as forças das trevas…), Tolkien abraça esse lado mítico e epopeico, lado esse que deu parte do brilho e da sensação de grandiosidade única notória em toda a sua obra.


Herbert, por outro lado, está no outro lado da balança, não como um cético, mas como um crítico da religião e do seu poder na formação de Estados, bem como da forma como esta influencia as mentes mais frágeis e manipula a realidade. O seu romance mais popular, o revolucionário Dune, engloba tudo o que existe de mais ávido nas crenças ideológicas do autor, pois Herbert critica as falhas dos Estados e respetivos sistemas políticos, a falsidade de determinadas crenças religiosas, usadas apenas para transformar povos em armas vivas na luta em prol de uma causa que, de divinas, têm apenas a etiqueta dada pelos manipuladores da verdade.


Existe uma determinada ideia de otimismo inerente a Tolkien, que se opõe ao negativismo de Herbert, pois, embora ambos tenham vivido as duas Grandes Guerras, a forma como decidiram encarar a realidade e escrever a sua mensagem ao mundo difere bastante. Tolkien fala sobre a dualidade do bem e do mal: especialmente em O Senhor dos Anéis, não existem personagens que representem tons de cinza propriamente; ele deixa claro que, se algum personagem nascido bom se torna mau por algum momento, a culpa não é sua, mas sim do “anel”, a representação do pecado que influencia os vivos e lhes promete os seus desejos mais íntimos. A filosofia otimista deste, de que até o mais quebrado dos seres pode encontrar o bem e a sua redenção, até mesmo através do sacrifício, será confrontada com a visão de Herbert.


Para este último, o poder é algo que não se materializa num artefacto, o poder é alcançável por todos através dos seus meios e o desejo de o alcançar leva à corrupção do Homem. A maldade pode ser algo inerente a nós, não existem seres de luz ou de escuridão. No épico de Herbert, encontramos apenas a realidade – tal como por ele a interpreta –, uma realidade simples, mas que influenciaria toda a sua saga Dune: o poder corrompe. As personagens não são idealistas românticos ou tão puramente heroicos, são apenas seres que tentam sobreviver num universo onde a luta por controlo os aniquilará se não assumirem as rédeas sobre a sua vida, e eles tomam decisões egoístas, são movidos por emoções e por motivações que levam, por vezes, a comportamentos eticamente questionáveis.


Como último grande ponto, não podemos deixar de fora os protagonistas claramente antagónicos de O Senhor dos Anéis e de Dune. São eles o motor das respetivas narrativas: é em torno deles que a história se desenrola, e é o próprio enredo que molda as suas decisões e caráter, muitas vezes é o que nos move a nós, como leitores, e acredito que seja dos maiores e mais fulcrais pontos que levou Tolkien a receber negativamente a obra de Herbert.


Em O Senhor dos Anéis, encontramos vários personagens que contribuem com feitos importantes na obra; porém, ninguém seria mais importante e possuiria um fardo mais pesado do que Frodo Baggins. Frodo é a representação do puro bem, um pequeno Hobbit intocado pelo mal do mundo, de baixa estatura, mas de elevada bondade e compaixão. A sua jornada de carregar o anel até Mordor, de modo a destruir este e derrotar o mal, é uma jornada de superação e uma prova de que a força e a coragem vêm de lugares inesperados. Muitos caíram a carregar o anel, seduzidos pelas suas promessas de poder e pelas fragilidades pessoais que este instrumentaliza a seu favor. Porém, Frodo resistiu: mesmo diante de inúmeros desafios e de situações aterradoras, ele e o seu amigo, Sam, lutaram e ajudaram-se um ao outro, levando à salvação da Terra-Média. Frodo e Sam transmitem uma mensagem bela, de como as mais nobres almas não conseguem – e não conseguirão – ser corrompidas, e que, mesmo após eventos que deixam cicatrizes morais e físicas, o bem permanece, o mal será derrotado e a mais forte das amizades consegue vencer a sedução das trevas.


Por outro lado, na obra de Herbert encontramos Paul Atreides, herdeiro da Casa Atreides, que vê a sua vida destruída por uma conspiração política com o intuito de derrubar a sua família. Após esta tragédia, Paul embarca numa jornada de transformação e vingança que o levará a tornar-se o “Escolhido” dos povos da areia que habitam no planeta Dune, os Fremen


A grande diferença entre estes dois protagonistas pode notar-se já no propósito das suas jornadas, pois enquanto Frodo pretende erradicar o mal e salvar os povos livres da Terra-Média, Paul deseja vingar a sua Casa e a sua família, forçando-se a ser algo mais, não um líder, mas um verdadeiro “Messias” para os povos que habitam o planeta de Dune. Para tal, ele deverá aproveitar-se das crenças falsamente cultivadas no planeta, de modo a tornar-se o escolhido por quem os Fremen lutarão. A jornada de Paul não é a clássica “jornada do herói”, nem ele é a representação do puro bem – ele é um protagonista com tons de cinza, alguém que, graças à sua linhagem, possui poderes de presciência e que foi treinado, desde criança, de modo a tornar-se um hábil líder e sucessor para seu pai e que usará desses dons para se tornar o líder político e religioso em que os Fremen creem.


Essa crença dos Fremen, em si, tem contornos da crítica à religião feita pelo autor, pois foi uma religião implementada nas mentes primitivas daquele povo por um grupo manipulador, uma crença cultivada desde há muitos anos para um dia ser instrumentalizada. Paul começa como uma espécie de tela em branco, sem grandes máculas ou pecados, porém, ao longo da sua jornada, este transformar-se-á num tirano disfarçado, um líder tão carismático que consegue até mesmo enganar os leitores, fazendo com que o apoiem na sua vingança. A forma como Herbert escreveu Paul, como um líder grandioso, possuidor de feitos épicos, um libertador e vingador das injustiças, maquiou de forma tão eficaz o verdadeiro monstro que fora criado, que o motivou a escrever a sequência, O Messias de Dune, sequência essa que desconstrói toda a personalidade verdadeira do outrora carismático e justo protagonista, revelando ao público da época a verdadeira mensagem de Dune: uma mensagem tão fortemente provocadora que, quando revelada, levou a críticas negativas à obra pelos fãs do original, fãs esses que não acreditavam que o Paul do original fosse aquele ditador impiedoso que acompanhavam ali. 


Com todos estes pontos expostos, é notória a diferença entre as duas obras. Enquanto Senhor dos Anéis foi escrito por Tolkien como uma mensagem de otimismo e superação para a Humanidade, uma história épica de bondade e justiça que acenderia uma chama de esperança após dois conflitos mundiais, Dune tornou-se um aviso para os cidadãos, uma mensagem de cuidado para aqueles que elegem os seus líderes e uma forma de expor a maquinação e a lavagem ideológica que muitos sofriam por parte de determinados Estados.


Gonçalo Pinto

Departamento Cultural

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