Um mundo além da ideologia: as promessas do discurso populista
- Manuel Brito e Faro
- 3 de dez. de 2023
- 3 min de leitura
“Toda a sociedade que não é esclarecida por filósofos é enganada por charlatões (1793)”
Quantos alunos de Direito não se cruzaram com estas palavras de Condorcet, presentes no preâmbulo da “História das Ideias Políticas” de Diogo Freitas do Amaral? Proclamadas no seio da revolução que mudou para sempre a humanidade, estas palavras revelam-se intemporais. Afinal de contas, será ou não apenas um fenómeno moderno a recusa do pensamento filosófico, em vertente do populismo que diz acolher a vontade do povo como um todo?
Em pleno século XXI, o populismo revelou-se uma alternativa esperançosa num panorama político desanimador, prometendo a um eleitorado dividido e polarizado a reunificação do povo, partilhando um conhecimento invejável sobre a corrupção das chamadas “elites políticas”, e ainda um dom sobrenatural para “reerguer o país”. O aspeto intrigante, ou pelo menos curioso, deste fenómeno político é a sua desvinculação assumida de qualquer ideologia conhecida até os dias atuais.
O populismo tem uma capacidade admirável de muitas vezes conseguir atrair milhares de pessoas que depositam num líder carismático toda a sua confiança de que o seu país “vai voltar a ser grande” sem invocar qualquer ideologia praticável ou forma de organização política a alcançar. Mas será mesmo de admirar essa capacidade?
Alguns poderão dizer que o nacionalismo é porventura a ideologia por trás dos partidos populistas; mas que praticabilidade tem este valor nas decisões políticas? O que é, afinal de contas, uma lei nacionalista, ou até uma governação nacionalista? Poder-se-á ainda, a par da identidade nacional, incorporar uma religião no discurso, mas esta parece funcionar mais vezes como um instrumento estético, na medida em que invoca uma representação tradicionalista e, assim, uma imagem política apetecível a um certo eleitorado.
Deste modo, as inspirações por trás de tão notórias figuras populistas revelam-se um enigma. Talvez representarão uma microideologia dentro do conservadorismo? Afinal de contas, também as ideias conservadoras não apresentam um programa político linear para as suas decisões políticas, podendo ir buscar certos ideais ao liberalismo, outros à social-democracia. Contudo, o conservadorismo está assente em certos valores fixos, relacionados com a valorização e manutenção das instituições. Por mais que o conservadorismo apresente um modelo de atuação por vezes irregular, a sua matriz parece estar consolidada na nossa consciência, na medida em que sabemos as crenças pelas quais se segue.
Já o populismo se apresenta muitas vezes indeciso na formulação da sua matriz principal. Não se pode chamar conservador, na medida em que apresenta um desejo de rutura com o “status quo”, mas muito menos se pode chamar a este pensamento progressista, nomeadamente pelo ódio que têm pelos movimentos políticos de emancipação social, como o feminismo, ou ainda pelo comunismo.
Assim, a dúvida permanece. Alguns dirão que isto é um sinal positivo para a política, apontando as falhas que a aplicabilidade dos vários pensamentos ideológicos apresentaram no decorrer da história. Esta é uma crítica absolutamente válida à qual respondo com uma questão: que líderes históricos permanecem na nossa consciência enquanto exemplos de governantes perfeitos?
Atualmente, vemos uma depreciação da palavra “ideologia” no espaço público, retratado somente enquanto um mecanismo de manipulação do eleitorado. Pois não é que a ideologia é um elemento subjacente a qualquer discurso político, mesmo aquele que se afirma superior a ele. O discurso “não ideológico” é inerentemente uma maneira própria de observar a realidade, com os seus próprios fins e meios, e assim uma ideologia em si mesmo. Quando o ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, afirmou diante do país, no seu discurso de inauguração, que iria “governar sem viés ideológico”, que tipo de governação podíamos esperar?
As ideologias podem e vão continuar a falhar todos os dias, nomeadamente na cegueira intelectual e crítica que provocam. Contudo, a fé depositada em líderes resulta em consequências, na minha visão, muito mais desastrosas.
O propósito deste artigo não é a exaltação do valor da ideologia enquanto único instrumento para a construção de uma identidade política, mas sim a sua importância para os vários fatores que determinam esta identidade. Obviamente que uma ideologia não se manifesta senão em figuras humanas e materiais, e que estas são as únicas capazes de a doutrinar com eficácia ao eleitorado, mas a crença num político sem ideologia é incontestavelmente uma crença na figura em si.
Por mais que desejemos que se erga das cinzas da crise política em que nos encontramos um líder que nos conduza à luz ao fundo do túnel, queiramos também que o caminho seja iluminado por ideias em que acreditemos integralmente, e recusemo-nos a ser guiados por alguém que nos oferece a mão, afirmando-se salvador, só para nos manter, ao longo da jornada, com os olhos vendados.
Manuel Brito e Faro
Departamento Fazer Pensar
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