Um Oceano de Oportunidades
- Departamento Fazer Pensar
- 5 de jan. de 2023
- 6 min de leitura
Falar sobre o IPDJ, o Instituto Português do Desporto e da Juventude, na nossa ótica, significa falar de oportunidades. Oportunidades essas que nos permitem o contacto com os públicos mais jovens, com pessoas que marcam a nossa vida, por diversos motivos, e a experiência única de partilhar, da melhor maneira possível, o nosso saber.
Já sabia da existência deste instituto público, todavia, confesso que nunca havia pesquisado minuciosamente sobre o mesmo, pelo que desconhecia eventuais programas e ações que pudessem oferecer aos jovens. O principal contacto com o IPDJ, e o interesse em saber mais sobre o mesmo, ocorreu, sensivelmente, no verão, através de uma Criminóloga que acompanho há algum tempo. Através das suas plataformas online, partilhou a sua experiência, a convite do IPDJ, na apresentação do tema Cyberbullying, a crianças e jovens, no âmbito do projeto “Navegas em Segurança?”. Bom, a verdade é que desconhecia tal ação de sensibilização. Porém, enquanto estudante de Criminologia, e abordando este género de temas quase diariamente, tal publicação captou a minha atenção de tal modo que o meu registo no site do IPDJ foi imediato. Voltei-me instantaneamente para o projeto já mencionado e, sorte a minha, ainda estavam a aceitar voluntários, uma vez que o projeto decorreria até ao final de 2022. Alguns meses depois, e já durante o atual ano letivo, fui contactada pelo IPDJ – por alguém à qual hoje estou eternamente grata! – a fim de iniciar esta viagem única de voluntariado.
Sabia, previamente, as faixas etárias com as quais iria lidar, tendo, até ao momento, contactado com crianças e pré-adolescentes dos 4º, 5º e 7º anos letivos. Confesso que inicialmente manifestei alguma timidez, ainda que tentasse não a transparecer. Saliento que, logicamente, não sabia se estas crianças estariam elucidadas acerca do tema de Cyberbullying, nem tão pouco se já tinham usufruído de alguma ação de sensibilização para o efeito. Tentei preparar uma sessão dinâmica para o público em questão e, a verdade, é que tem sido uma experiência única de enriquecimento vasto! As turmas que lidei até então – e atrevo-me até a generalizar às crianças na sua globalidade – interessam-se por tudo que as rodeia. Estas encontram-se na fase mais bonita das suas vidas, em que estão gradualmente a conhecer o mundo que as acolhe. Aliás, sublinho, neste ponto, a imensidão de factos que aprendemos com as crianças, a quantidade de bagagem que estas, tão jovens, já aportam. Costumam dizer os nossos pais e avós “Eles (os miúdos, as crianças) sabem mais que nós” e, às vezes, tal premissa parece mesmo verdade. Assim sendo, em todas as sessões que já dinamizei para as turmas que contactei, todas se revelaram bastante participativas e compenetradas no que estavam a ouvir. Queriam saber mais. E, sobretudo, queriam partilhar as suas histórias relacionadas com a temática debatida. No que concerne a este facto, devo mencionar algo que tenho notado: as crianças gostam de compartilhar, sobretudo com os mais velhos, as suas vivências. Gostam de ser ouvidas. Gostam de sentir que contribuíram positivamente para algo – e, neste caso, contribuíram em larga escala com conteúdo importantíssimo para a aula. Às vezes, a felicidade imediata no rosto das crianças quando recebem a notícia que a aula da manhã será totalmente diferente, nem sempre advém, creio eu vivamente, do facto de não terem uma aula normal de Português ou Matemática. Mas sim, em grande parte, acredito, pela possibilidade única que terão, em 50 minutos, de conhecerem novas pessoas, de aprenderem mais sobre algum fenómeno e de partilharem, se assim decidirem, as suas experiências. Acresce, em nós, uma sensação de dever cumprido, quer a nível pessoal, quer profissional. E tal sensação é das melhores que o ser humano pode experienciar!
Maria João Pereira Departamento Fazer Pensar
À semelhança da Maria, também eu participei no “Navegas em Segurança?”, e noutras oportunidades de voluntariado, mas também de formação, do IPDJ. Além disso, beneficio, como a maioria dos leitores, de atividades realizadas por associações juvenis que o IPDJ co-financia. No entanto, estes benefícios tendem a ser indiretos para quase todos, notando-se a falta de adesão nos programas de voluntariado (e penso que a Maria deixou claro, não é por serem pouco atrativos ou compensadores) e formação (cheguei a estar numa formação deste instituto para a juventude, em que havia mais pessoas acima dos 40 do que pessoas abaixo dos 25). De facto, nessa formação, refletiu-se sobre vários problemas relativos à juventude e vários deles relacionam-se com dois principais fenómenos: primeiro, a falta de iniciativa dos jovens e, segundo, a desadequação da comunicação para o público jovem.
Certamente, o leitor saberá dar exemplos de alguns jovens promissores, como a Inês Alexandre, a Patrícia Gilvaz ou o Tomás Magalhães, mas falhará em considerar que as exceções são exatamente o que confirma a regra. Para cada um dos exemplos existirão milhares de nós, em menor ou maior grau, consumidores passivos daquilo que a sociedade tem para oferecer.
O meu segundo ponto será de que o Estado e os AdultosTM não sabem comunicar com as gerações que lhes seguiram, mas não quererei com isso dizer que a (ir)responsabilidade não seja em muito nossa. As oportunidades existem para nós e ainda queremos que nos venham dar-nos a água à boca? Quando tantas vezes o tentaram fazer e meio que ignoramos? A verdade é que são raras as vezes que alguém se arrepende de fazer voluntariado, de ir a uma formação, de fazer uma viagem. Sim, uma viagem, porque mesmo com toda a minha excitação sobre Youth Exchanges (Erasmus+), que cobri em dois artigos anteriores(1)(2), apenas convenci três pessoas a ir.
Além disso, preocupa-me tantas vezes reencontrar as mesmas pessoas em Youth Exchanges e no IPDJ. Parece que as oportunidades que existem são muitas vezes aproveitadas pelos mesmos, o que não é mau por si mesmo, mas pode dar a ilusão de que as iniciativas têm sucesso porque alcançam o número desejado de participantes, apesar de, em simultâneo, nada conseguirem na métrica de alcançar novas pessoas e camadas da população. Quantas pessoas de situações familiares e económicas desfavorecidas participam nestas iniciativas? Por participar, sei que por vezes existem até vagas prioritárias para estas pessoas. Mas se a informação não lhes chega, ou não lhes chega de forma apelativa, é natural que não beneficiem das oportunidades criadas.
Sobre a comunicação, há muito que se lhe diga. Além de não alcançar vários stakeholders relevantes, como mencionado no parágrafo anterior, tem a falha de não alcançar praticamente ninguém. Têm crianças e jovens dos 6 aos 18 anos fechados em salas cinco dias por semana e as instituições do Estado não conseguem falar com eles? Têm a morada de todos os munícipes mas não conseguem enviar uma carta? Fazem promessas de digitalização e modernização mas não criam plataformas de comunicação efetivas de subscrição? Parte do problema será sempre ser uma comunicação de AdultosTM para jovens, e não uma comunicação de jovens para jovens. Não que o clássico “temos que pedir a influencers para partilhar isto” não resulte, mas de facto uma das formas mais efetivas de espalhar a mensagem é de jovem para jovem, com testemunhos o mais diretos possíveis e com instruções claras e simples de como se envolverem, e porque o devem fazer. Mas as estruturas ainda não estão devidamente preparadas para nos integrar: uma vez, nas minhas aventuras pelo voluntariado, disse que podia convidar alguns amigos para fazer umas sessões também, sabendo que são capazes de alinhar, ao que o IPDJ respondeu: sim, claro, só têm que (…). Procederam a descrever um processo burocrático no seu site nem sempre funcional, e raramente funcional por inteiro. Assim, apenas consegui convencer duas pessoas a participar em projetos: uma amiga participou, comigo, num evento anexo à Convenção dos Oceanos das Nações Unidas, e outra, bem, participou no “Navegas em Segurança”, no qual já estava inscrita mas, por alguma razão (que desconhecemos), não tinha sido ainda contactada, e escreveu este artigo comigo.
De facto, cada passo extra que se impõe não só desmotiva as pessoas como gera a possibilidade de erros e ineficiências na parte mais importante do processo: a captação da atenção e do compromisso. Por vezes as burocracias importam, mas deixem para depois. Na minha ótica, embora os problemas existam em ambas as partes, a forma mais fácil de resolver esta falta de envolvimento em excelentes oportunidades é mesmo rejuvenescer, simplificar e desburocratizar os meios de acesso às mesmas.
Guilherme Alexandre
Departamento Fazer Pensar
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