Vis a Vis: Panela (de)pressão académica
- Beatriz Nunes e Margarida Leal

- 20 de mai.
- 7 min de leitura
Caros leitores,
Há quem diga que os melhores anos das nossas vidas são passados na faculdade! Ora, a faculdade, como instituição, é caracterizada como um lugar de estudo, de aprendizagem e de desenvolvimento. No entanto, a vida torna-se insuportável se apenas estiver submetida a horários e rotinas de estudo sem limites. É necessário encontrar um meio termo, um equilíbrio. Foi na mira deste tema que decidimos, conjuntamente, apresentar as nossas perspetivas sobre alguns pontos que consideramos importantes e desafiadores para um excelente debate!
Oportunidades
Beatriz Nunes: No âmbito das “oportunidades”, creio que se instalou nas nossas mentes uma pressão, a meu ver, crescente, para se aproveitarem todas as experiências disponíveis durante o período académico. Os estudantes sentem que precisam de participar em tudo ao mesmo tempo - estágios, projetos, cursos extracurriculares, voluntariado, atividades académicas - para se destacarem no mundo do trabalho ou, quiçá, na sua vida social. Esta consciencialização coletiva de que é necessário estar constantemente a construir currículo gera a sensação de nunca ser “suficiente” ou não estar a fazer o devido e o correto. Em vez de viverem a faculdade ao seu próprio ritmo, fazem-no à margem e semelhança de um padrão que nos é incutido e que não é, de todo, nem de modo algum, saudável. Deve existir um equilíbrio que, infelizmente, começa a ser interpretado como “ficar para trás”. Não é bem assim!
Margarida Leal: Quanto a este aspeto, por outro lado, julgo que o melhor que podemos fazer enquanto estudamos é também ocuparmo-nos com algo que vá além da faculdade, mesmo dentro dela. Estudar e terminar o curso é claramente importante, mas existem lacunas no programa curricular académico que só podem ser preenchidas através de outras atividades, como cursos e estágios. Acrescento ainda que, com 20 anos, muitos de nós desconhecem a realidade do mundo profissional. Por isso, quanto mais cedo nos aproximarmos dela, para lá do ,universo universitário, mais preparados estaremos e menor será o choque de realidade aquando da entrada no mercado de trabalho. A verdade é que a aprendizagem se constrói muito além de um percurso académico; nesse sentido, é importante começar, gradualmente, a desenvolver um currículo que reflita curiosidade intelectual e crescimento pessoal.
Ainda assim, acredito que essa construção deverá ser feita de forma progressiva. A faculdade também é um período de adaptação e transição para uma nova fase da vida, e, numa fase inicial, é natural que os estudantes não estejam constantemente focados na construção de um currículo. Contudo, à medida que o tempo passa e os caminhos académicos se vão desbravando, julgo que se torna inevitável a vontade de conhecer áreas além do Direito e de participar em atividades dentro e fora da faculdade. A entrada na idade adulta, mesmo quando ainda somos jovens, acaba por se fazer sentir. É necessário desenvolver algum sentido de responsabilidade, ainda que isso implique lidar, por vezes, com pressão e stress.
Falta de autenticidade no mercado de trabalho
Beatriz Nunes: Relativamente ao mercado de trabalho, sinto que se estereotipou um tipo de profissional. Os jovens sentem uma pressão desmedida para construir uma imagem ideal e vão adaptando a sua personalidade, interesses e até valores às expectativas das empresas. Existe a ideia de que é necessário demonstrar resultados imediatos, versatilidade e sucesso. Mas onde há espaço para a autenticidade? Começam a gerar-se pessoas competitivas, de forma exagerada, não apenas com os outros mas consigo próprias. A necessidade de corresponder a padrões externos fomenta o desgaste emocional, a insegurança pessoal e uma dificuldade “assustadora” em distinguir diferentes identidades e imagens: a pessoal e a profissional.
Margarida Leal: A falta de autenticidade no mercado de trabalho é algo que, efetivamente, é irrefutável. As entidades empregadoras desenham o protótipo do tipo de trabalhador que desejam: estudante com média x ( que pode, por vezes, variar conforme a instituição de ensino frequentada), que participa em atividades associativas (é impensável alguém apenas estudar) e que realiza voluntariado (é preciso demonstrar que nos preocupamos com os flagelos sociais, mesmo que passe apenas por demonstrar e não a concretização de uma preocupação concreta). Além disso, é necessário adicionar algum tipo de experiência profissional, em qualquer ramo (se esta existir). Parece-me um perfil básico que pouco reflete a verdadeira natureza humana. O estranho é que, por vezes, este perfil apenas vale para alguns … . Dito isto, penso que questões como “ir ao teatro” ou “acordar cedo para ir ter com o avô” seriam mais relevantes. Seguir um perfil que já está traçado é um nada. Fazer o que as empresas e escritórios esperam que façamos não será cair no conformismo? Não será este um jogo viciado?
Romantização de uma vida intensa
Beatriz Nunes: A “romantização” de uma vida intensa contribui para a normalização de ritmos de vida excessivamente acelerados, sobretudo no contexto universitário. Existe uma valorização constante de produtividade e de acumulação de experiências (nomeadamente aquelas que testam os nossos limites), como se o sucesso dependesse da capacidade de estar permanentemente ocupado. É um tema sobre o qual me debruço e sobre o qual gosto de escrever. Embora estudante de Direito, interesso-me sobre temas ligados à psicologia. Fico assustada, diversas vezes, com a banalização da saúde mental e da saúde física, como se estivéssemos a falar de máquinas e não de pessoas. Parece que quanto mais informação menos informados estamos, ou então, é a sociedade que não a sabe interpretar nos trâmites corretos.
A liberdade conquistada com o “25 de Abril” deveria permitir-nos pensar criticamente, discordar, escolher caminhos diferentes e existir sem medo da exclusão. Contudo, sinto que continuamos presos a padrões silenciosos que nos dizem como devemos viver, sentir e até sofrer. Há um medo latente de não pertencer, de falhar perante os outros, de não acompanhar o ritmo coletivo. E é precisamente aí que a saúde mental começa a ser negligenciada: quando o valor pessoal e o ritmo frenético passam a medir-se pela produtividade e não pelo equilíbrio. No contexto universitário, esta lógica instala-se de forma subtil, mas persistente - quem dorme menos parece mais dedicado, quem está constantemente ocupado parece mais bem-sucedido, e quem abranda sente, muitas vezes, culpa. Talvez o verdadeiro desafio desta geração não seja fazer mais, mas aprender a existir de forma mais consciente.
Margarida Leal: Chamem-me masoquista, mas admito que gosto de sofrer. Gosto de me manter ocupada, de fazer as coisas de forma intensa, de chorar uma lágrima ou outra e até de me desiludir.. Claro que digo isto apenas depois de terminada uma época de exames, de me terem caído alguns cabelos e de já estar na praia a relaxar, mas a romantização de uma vida intensa ajuda-me a esquecer e atenua estes sofrimentos de estudante. Até vos digo que já estou ansiosa por passar os meus dias a estudar e a ter momentos de libertação pontuais. Minto! Estou ansiosa pelos momentos de libertação pontuais, porque o trabalho sabe deliciosamente bem, se pensarmos no objetivo de lazer que vem por diante. Acordar cedo para estudar? Sim, porque às 20 horas vou a um concerto, ou ver o pôr do sol com os amigos. A vida só poderá ser vivida intensamente se existir um objetivo que efetivamente sacie a alma. A vida intensa, por si só, não é romantizada, o que realmente romantizamos são os pequenos momentos entre o stress e a pressão, precisamente por nascerem do sentimento de concretização de um trabalho árduo. Claro que por vezes este não é compensado, mas aí já não há qualquer romantização: há apenas dor e trevas- o que também tem o seu valor, porque aprende-se sempre qualquer coisa!
Networking digital
Beatriz Nunes: O networking digital transforma o percurso académico numa exposição constante de conquistas e competências, alimentado a comparação, a competitividade e a necessidade de validação externa. Há uma pressão que nos é incutida, de forma subentendida, para ter uma presença profissional ativa e atrativa.
Através das redes sociais e plataformas profissionais, os estudantes são incentivados a transformar cada experiência em provas públicas de produtividade, sucesso e até perfeição. Esta cultura de exposição contínua cria a sensação de que o valor pessoal depende da capacidade de acumular diplomas. Mas não, o sucesso provém do conhecimento que tu próprio adquires! Já dizia o Professor Almeida Costa nas suas aulas de Direito Penal: “Um Jurista que só sabe Direito, não sabe nada”. O teu sucesso não será ditado pela quantidade de alíneas que tens no teu currículo, mas sim pelo conhecimento, pela aptidão em articulares temas e casos, pela autenticidade e capacidade em expores raciocínios de forma clara e objetiva e, acima de tudo, por conseguires mudar a vida de alguém para melhor, com base nos valores que o Direito nos ensina: Segurança e Justiça!
Margarida Leal: As redes sociais e as plataformas profissionais, por vezes, deixam-me com o pé atrás (e não é porque não as sei usar). A construção de uma rede de networking no universo digital parece-me questionável, porque , na verdade, não conheço verdadeiramente muitas das pessoas com quem é suposto conectar-me. Este networking não é totalmente real; as 500 conexões não são reais. Ainda assim, por algum motivo, quem as tem parece automaticamente possuir um perfil mais interessante. Tudo isto cansa: atualizar constantemente perfis, procurar pessoas novas, criar conexões irreais num universo igualmente irreal. Mas, não posso negar as vantagens destas plataformas. Há cursos, informações, formações e oportunidades de contacto com novas áreas de conhecimento. Apesar de o networking digital ser questionável, permite-nos descobrir interesses e caminhos que talvez nunca tivéssemos considerado..
Penso até que estas plataformas são um espaço ideal para para a divulgação de ideias e percursos académicos ou profissionais, precisamente porque, ao contrário de outras redes sociais, tendem a afastar-se da superficialidade e da futilidade. A verdade é que através dos currículos dos outros conseguimos aprender, ganhar perspetiva e abrir portas para o nosso próprio futuro. Ficamos a conhecer áreas de especialização cuja existência desconhecíamos, bem como empresas que procuram exatamente perfis como o nosso. Existe, efetivamente, todo um novo universo de conhecimento sem limites!
Entre perspetivas diferentes, uma conclusão é inevitável: a pressão académica existe, mas é vivida de formas distintas. Para uns, representa desgaste; para outros, motivação. Talvez não exista uma fórmula correta para viver a faculdade. Mas existe, certamente, um erro comum: esquecer que o sucesso académico perde valor quando é alcançado à custa da nossa autenticidade, equilíbrio e saúde mental.
Beatriz Nunes
Margarida Leal
Departamento Mundo Universitário

Comentários