À procura do coração selvagem
- Vicente Correia

- 5 de nov.
- 4 min de leitura
“O que me guia apenas é um senso de descoberta. Atrás do atrás do pensamento.”
Clarice Lispector (in Água Viva)
No fluxo de palavras que não acaba, diz a determinada altura: “Tenho que falar porque falar salva”. Salvou Clarice Lispector, e vai-nos salvando a nós. É sempre essa a impressão que tenho quando a leio, porque desce às profundezas de si própria, e nós vamos com ela nesse caminho doloroso que é, em si mesmo, redentor. Não porque nos dá respostas, antes porque nos interroga, porque nos interpela, e isso é sempre mais importante do que as soluções. É assim que vejo a literatura — como um espaço para pensar e compreender o mundo, os outros, eu próprio. Conhecer, compreender, perguntar e furar as paredes do nosso mundo e da nossa história. Que é só mais uma entre as demais. Que a minha experiência é só mais uma entre as outras. Sem nunca deixar de ser única e irrepetível, mas ainda assim mais uma. A de Clarice atravessa todos os seus textos e, através dela, reconhecemos as nossas miudezas (no fundo, o coração selvagem, que é o mesmo que dizer, o que há de mais íntimo e profundo em nós).
É em “Perto do coração selvagem” que Clarice nos coloca perante Joana — “tristemente uma mulher feliz”, que não quer estar confinada aos limites que a vida e a sociedade lhe impõem. Os limites que a sufocam quando o que ela deseja ainda não tem nome. A liberdade, pensa o leitor. Sim, mas é mais do que isso: a liberdade interior, absoluta, inteira, que ela anseia e que lhe permitirá viver plenamente. Como que indomável, rejeita ser domesticada numa sociedade que o faz a todo o momento. Ainda mais em 1943, quando o livro é publicado, marcando a estreia de Clarice na literatura — e que estreia! Clarice, também ela indomesticável, e, por isso, considerada pelos outros como misteriosa, procura o coração selvagem aos vinte e três anos. E faz estas perguntas: “A única verdade é que vivo, sinceramente eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais.” E questiona: “Mas, sobretudo, donde vem essa certeza de estar vivendo? Não, não passo bem. Pois ninguém se faz essas perguntas e eu…”. Ela fez, nós fazemos. Porque é na literatura que nos reconhecemos como semelhantes que têm as mesmas questões essenciais desde o início dos tempos.
Como a felicidade. O que é? Para que serve? Ou, na linguagem de Clarice, “depois que se é feliz, o que acontece? O que vem depois?”. Outra vez as perguntas, tão mais importantes do que as respostas, porque são elas que nos abalam, que nos obrigam a alargar o pensamento para além do que achávamos possível, que nos colocam diante do desconhecido e, aí, entrar à procura de mais e mais, sabendo que muitas das respostas nunca chegarão.
Além deste romance de estreia, há outro, também em português, mas de Portugal e, também, de uma mulher. Lídia Jorge é o seu nome e, como Clarice, é alguém que me maravilha. Lê-las é descer às profundezas do pensamento e da nossa existência. Com Lídia encontro a essência —não já do humano com em Clarice, mas do português, em particular, desse país esquecido e isolado fora dos grandes centros urbanos, de que Vilamaninhos é a sua representação. Mais uma vez à procura do coração selvagem, que, aqui, é a busca por aquilo que é a essência dos portugueses num período histórico vivido antes e depois do 25 de abril, pelas raízes de uma “portugalidade” esquecida, de um país que espera e de um povo cujo desencontro de diálogo o isolou.
Falo de “O Dia dos Prodígios”, a estreia literária de Lídia Jorge, que, em 1980, num contexto pós-revolucionário, escreveu sobre essas gentes de um Portugal profundo (o povoado fictício de Vilamaninhos) que o 25 de abril encontrou e quis libertar. Mas, a determinada altura desse fluxo de palavras (como em Clarice), há alguém que diz, como que em forma de sentença: “Ninguém. Ninguém se liberta de nada se não quiser libertar-se.” E ainda disse: “Mas aqui. Aqui ficam todos pelo desejo das coisas.”
Ficam à espera (a espera sebastiânica) do prodígio que os salve, entregando-se a mitos e a superstições, mas, quando chega o verdadeiro prodígio (a Revolução), não são capazes de a reconhecer e de entender o verdadeiro sentido e a dimensão do que aconteceu. Estão como que alienados, não conseguindo perceber a mudança que acaba de chegar. É um retrato desse país fechado e isolado, que não percebe o significado da Revolução, vivendo mais dos mitos e à espera deles do que da ação, do “agir” e do “querer”. Este “Dia dos Prodígios” é, sobretudo, uma alegoria da libertação portuguesa — um retrato poético e simbólico do despertar de um país que, após décadas de silêncio, vê a liberdade surgir como um milagre, mas hesita diante dela, sem saber se é real ou apenas mais um “prodigioso sonho”. Um povo oprimido durante anos que espera pelo prodígio, mas não o reconhece quando ele chega.
Lídia, tal como Clarice, dá voz às mulheres, as mulheres tradicionalmente silenciadas. Branca é uma dessas mulheres, subjugada ao poder masculino. Há um dia em que enfrenta o marido, perante o espanto dos outros (“os vizinhos começaram a chorar e a gritar descompostamente. Não porque homem e mulher se arranhavam como ginetos e mordiam como cães. Não. Mas porque nunca tinham pensado que Branca, uma só vez na vida, fosse capaz de outro gesto senão o da obediência, comedimento e castidade.”). Estes vizinhos somos, muitas vezes, nós, que nos limitamos ao lamento das coisas sem nunca intervir quando moralmente (e humanamente) isso nos é exigido. Pode ser que ler estas páginas nos faça perceber que a verdadeira liberdade é não ter medo e que a coragem é a forma de libertação. Branca teve-a. Lídia honrou-a.
Duas escritoras, duas mulheres à procura do coração selvagem, que é o mesmo que dizer, à procura do intraduzível, do indizível, e desse mundo interior que está em cada um de nós e que elas nos ajudam a desbravar. Ou a escavar. É isso o que pode a literatura (ou as palavras) fazer. E olhem que não é pouco.
Vicente Correia
Departamento Cultural




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